segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Como montar um kit - Parte 1: o essencial

Acho que já falei de mais sobre várias coisas relacionadas ao reenactment em si e então resolvi fazer um post para os iniciantes na atividade, mas que também é válido para os mais experientes. Quisera eu ter alguém me dando algumas dicas quando eu comecei, nem que fosse pra eu as ignorar, mas nessa quase uma década a coisa mudou muito e acho que pode ser um post útil pra bastante gente.

Um dos motores pra eu escrever esse post é o chat do pessoal da Old Norse, que reúne membros de vários grupos do Brasil e onde vira e mexe percebo que muita gente tem dúvidas do que pode ou não fazer, ou do que quer ou não fazer ou do que consegue ou não fazer. Afinal, vamos ser sinceros: reenactment é um negócio que pode ser bastante caro e pode ser mais caro ainda se começar indo pra direção errada.

Esse post é mais específico para a Era Viking/Carolíngia, porque é a época que eu conheço mais, mas claro que posso citar coisas de outros períodos quando for conveniente. E é óbvio que eu não domino todas as informações do período e vou me limitar na minha área de segurança nos exemplos, isso aqui não esgota o assunto e não chega perto nem de 1% de esgotá-lo, é apenas um "Crie seu kit for dummies".

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Bom, então você tá fazendo recriação histórica faz um tempinho, ou você já faz tem alguns anos e quer um kit novo, ou você viu uns malucos no parque e achou um troço maroto pra cacete e quer fazer, mas não entende lhufas. Serve pra todo mundo. O que você vai precisar?

A primeira coisa é fazer uma lista de coisas que o kit precisa ou pode precisar. Eu vou dar uma lista aqui pra ajudar vocês a pensar, mas é claro que ela não é 100% completa, mas é a que eu uso quando quero pensar nisso. Obviamente, por eu ser um homem e sempre fazer recortes masculinos, a lista que segue aqui é uma lista para isso. Fico devendo pras mulheres e - por que não? - homens que queiram fazer um recorte feminino.

Sapatos*
Calças*
Túnica
Cinto
Bolsa/sacola/pouch
Capa e broches
Gorro/touca
Utensílios primários (coisas para fazer fogo, pedras de amolar, etc...)
Utensílios secundários (objetos de limpeza pessoal, pentes, linhas, agulhas e retalhos para reparos, etc...)
Facas (de status, de alimentação, ferramentas)
Jóias/"enfeites"
Armas
Escudo
Proteções/armaduras
Objetos de ócio/festividades (tabuleiros de jogos, dados, drinking horns, etc...)
Objetos "comunitários" (panelas, baús, foles...)

A lista pode ser maior ou menor, dependendo do caso, claro. E obviamente uma pessoa não necessariamente precisa de todas essas coisas. inclusive, os itens sublinhados é o que acho que são "essenciais" pra alguém iniciante não se preocupar em fazer feio. TODO o resto pode ser dispensado e ir sendo adquirido com o tempo.

Depois, caso pense já num recorte, é pensar uma classe social. isso antes de determinar local e época. Classe social é a primeira escolha do recorte, ajuda a pensar todo o resto.

Mas ok, aí você gostou da lista, quer começar a fazer recriação amanhã, mas tudo o que eu falei foram coisas, você não tem uma idéia de que recorte você vai fazer, você não tem idéia do que é recorte, porque esse é o primeiro post desse blog que você está lendo, você sabe que você precisa de uma porção de coisas, mas não entende o motivo disso ou o que caralhos é uma pouch. Relaxa, vou explicar item por item com dicas e uma formação de um recorte o mais básico e neutro possível. E também alguns exemlos de "customizações" pra melhorar a aparência do objeto.

Dois adendos, como eu sou um chatão da autenticidade: Primeiro é que o bom senso deve ser mantido. Não adianta eu ter uma calça cheia dos bordados e tablet weavings com ouro e prata "porque é bonita" e vestir uma túnica feita de trapos e retalhos porque quer "ser um camponês". Você vai ficar ridículo, meu camarada. Ridículo pra valer. Segundo é que decoração raramente é neutra, ela sempre está ligada a uma classe social ou período. Se não se decidiu ainda sobre recorte, evite-as o máximo possível, a menos que sejam padrões geométricos simples, linhas paralelas, ponto-e-círculo e coisas assim. Agora, se você já tem um recorte definido, a lista se mantém, claro e você tem maior liberdade de escolher um estilo artístico contemporâneo ao que você se baseia, consegue usar objetos mais específicos que vão dando identidade ao seu kit e por aí vai.

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Sapatos: Claro que a lista começa dos pés à cabeça. Sapatos são sapatos, sem mistério pra isso. Eles cobrem o pé. Duh. Apesar de eu colocá-lo como item essencial, o asterisco ali significa que se você quer um recorte mais pobre, você pode andar descalço. Ou ainda embrulhar o pé com tecidos e tiras de couro. Existem algumas evidências pra esse tipo de coisa, embora sinceramente não me recordo a época e isso sempre acontece com gente das classe sociais mais baixas, como escravos. Outra opção é fazer calças que sirvam como uma meia-calça, talvez com um solado de couro ou com tecidos mais grossos embaixo. Embora existam vários exemplos físicos disso posteriores ao período, nas iluminuras francas do período carolíngio elas são bem comuns.

Existem vários estilos de sapatos e botas do período. Cano alto, curto, pontudos, arredondados, feitos com uma só peça, com duas, com três, fechados com laço, com botões, estilo sapatilha... isso depende muito de recorte escolhido. Vai só uma foto de reconstruções no museu de Hedeby pra terem uma idéia.


Mas se você quer um sapato e não pensou em nada de recorte, o que eu recomendaria seria um sapato como o da imagem abaixo. O exemplo é da atual Holanda e data de alguma data entre os séculos 6 e 8, então seriam pré-vikings, mas existem similares em diversos lugares e contextos como Staraya Ladoga (Rússia) séc. 7-9, Wolin e Gniezno (Polônia) séc. 9 e 10, respectivamente, York (Inglaterra) séc. 9, vários em Hedeby (atual Alemanha, embora no período fosse parte da Dinamarca) séc. 8-10. Outra solução é fazer a sola separada das laterais, como em achados dos mesmos locais, assim como de outros. Na arte, um exemplo que posso citar é no Salmo de Tiberius, do meio do século 11 de Winchester, Inglaterra, onde sapatos com costura frontal são vistos nas ilustrações, continuando essa mesma tradição.


A vantagem desse tipo de sapato é que ele é bastante comum por um longo período, que cobre desde antes até o fim da Era Viking além de uma localização geográfica bem ampla. É uma espécie de sapato coringa.

Mas se quiser outro tipo, recomendo que tenha um recorte melhor definido. E se já tiver um, pesquise bem mais a fundo qual estilo é mais comum na sua área, caso queira fazer algo típico, ou olhe as possibilidades dependendo do recorte em si.

Se for comprar, pergunte que couro o artesão usa. Não compre de quem não souber responder ou de quem falar qualquer coisa além de "atanado" sem se explicar, a menos que você conheça bem o vendedor e ele explique sobre a aparência do material. Já vi e usei no meu começo muitos sapatos feitos com couros camurçados, raspa de couro e outros por serem mais baratos para o artesão (me incluo aqui) e esses couros não possuem nem de longe a mesma aparência de um couro disponível no período recriado. Alguns couros já tingidos, como alguns usados em estofamento de carro, por exemplo, possuem boa qualidade e aparência, mas sempre é um tiro no escuro quando você não conhece o material e geralmente novatos não conhecem. Mantenha-se no "atanado natural" ou "veg/vegetable-tanned leather" que não vai ter erro. Ou, pra quem não se veste com produtos de origem animal, busque algum artesão qualificado que possa te indicar um bom sintético. Não é históricamente correto, claro, mas se você se sente mais confortável com isso, seja feliz com algo que pelo menos tenha boa aparência.

Pra customizar, rola tingir com tons diferentes, fazer uma borda com outro pedaço de couro, costurar as bordas com uma costura decorativa, costurar uma outra sola pra dar mais resistência, e por aí vai.

Calças: Também meio dispensáveis, dependendo do contexto, embora altamente recomendadas.

Existem poucas calças inteiras do período, bem menos que sapatos, por exemplo. E elas raramente são parecidas umas com as outras. O que podemos ver por representações artísticas sempre é complicado porque as túnicas sempre cobrem muito delas nas representações mais naturalistas ou, nas mais estilizadas, é confuso de mais discernir alguma coisa. Além disso, calças são tão distintas umas das outras e ao mesmo tempo possuem tantas coisas em comum até com calças tradicionais atuais que é difícil pensar em moldes e cortes corretos gerais. Eu vou dividir um pouco esse tópico de acordo com os tipos de calças do período, pra facilitar.

Em diversas pedras rúnicas de Gotland, uma ilha no mar báltico pertencente à atual Suécia, por exemplo, é possível ver calças que parecem com bombachas bem largas datando dos século 9-10. Abaixo tem uma figura de prata de Uppäkra, extremo sul da Suécia com uma representação dessas calças:



Além da Suécia, existem evidências artísticas de Oseberg, sudeste norueguês, que indicam o uso dessas calças no início do século 9. Existe pelo menos um fragmento de uma calça dessas de Hedeby do século 10. E fora do eixo do sul escandinavo, há um entalhe desse tipo de calça de Stockburn e em um em  Middleton, ambas no norte da Inglaterra, região que ficou "na mão" dos dinamarqueses durante o período.

Fontes escritas também dizem sobre o uso delas pelos Rus, no leste. Hudud al-'Alam, um persa no século 10 descreve que eles usam calças assim, feitas de linho.

O ponto é que ninguém desimportante era retratado na arte e essas calças precisavam de muito tecido para serem feitas. Some 1+1 e você pode deduzir que esse não é um tipo de vestimenta de gente pobre, mesmo que o achado de Hedeby tenha sido achado sob cisrcunstâncias peculiares, sendo calafetagem de barco. Outra coisa é que a referência sempre vem de locais do sul escandinavo ou com forte presença de pessoas do sul da Escandinávia. Mesmo as descrições do maluquinho persa, talvez fossem viajantes de outro lugar, assim como, veja só, ele mesmo. Se eu sou estrangeiro e só vou ao bairro da Liberdade em São Paulo, eu vou voltar pro meu país de origem achando que no Brasil só tem asiáticos e seus descendentes. Então a palavra de al-'Alam talvez seja um pouco mais válida pela descrição das idumentárias e costumes do que de quem fazia e usava. Mesmo porque em nenhuma ilustração da época ela aparece. Deem uma olhadinha nas calças da Crônica Primária Russa pra ter uma idéia, embora ela seja um pouco posterior à era viking.

Eu, em particular, só recomendo esse tipo de calça para quem queira representar um escandinavo ou alguém com fortes relações com a Escandinávia e principalmente alguém que tenha posses, porque tecido bom também não era barato na época.

Outro tipo de calças são as calças justas, embora elas não atrapalhem a movimentação. Quase toda a arte anglo-saxônica, franca e boa parte da arte escandinava do período as mostra em maior ou menor quantidade, eventualmente junto com outras "soluções" (como as famosas winningas). Ou mostra coisas que possam ser identificadas como tal, porque explicarei sobre as "chausses" ou "hoses" logo mais.

Thorsberg é hoje um lago no extremo noroeste alemão (que antes era Dinamarca) e possui pelo menos duas calças. Uma quase inteira e outra bem fragmentada. Ambas são diferentes entre si nos moldes, embora aparesentem certas similaridades e sejam parecidas visualmente. O problema é que datam dos séculos 2-4. Mas ainda assim considero uma possibilidade caso queira algo mais confortável do que dois tubos de tecido costurados no meio.

Eu também sei de um fragmento da calça de uma criança de Elisenhof, no sul da Alemanha, datada do século 8, embora eu não faço idéia de como esse fragmento se parece.

Além dessas, existe a calça de Skjoldehamn, numa ilha do extremo noroeste da Noruega. Bastante diferente na estrutura dos fragmentos, mas que mostra uma possibilidade extra de construção. Essa data do século 11 ou talvez até 12-13. Também fora do período em questão, embora não tem como dizer se era justa ou não. E como existem pedras rúnicas mostrando calças que não são "balão" e nem justas, talvez fosse uma dessas, com uma aparência mais parecida com as nossas atuais.

O uso desse tipo de calça é liberado pra praticamente qualquer pessoa, independente de classe social, década e localização geográfica dentro do período. É o que eu recomendaria como calça mais coringa. O corte dela é o de menos, já que não existem duas iguais, mas pense em como economizar o material, já que é a forma que eles faziam na época.

Por fim, temos as chausses/hoses. Talvez o que é representado nas ilustrações seja esse tipo de calça, já que a túnica cobre o que as diferiria das outras calças mais justas.

Hoses são basicamente tubos cônicos, geralmente costurados atrás ou na lateral que vestem as pernas e se prendem num cinto sob a túnica. Muitas vezes é mais fácil chamá-as de meiões, mas nem todas tem a parte do pé junta. Elas existem desde antes do período viking e tem seu auge logo em seguida. E existe pelo menos um achado em Hedeby de uma. Além de fragmentos da Groenlândia que datam de uma época imediatamente depois da Era Viking. Abaixo tem uma ilustração francesa do meio  do século 13 mostrando um homem de hoses à esquerda e um vestindo apenas as braies - tipo ceroulas ou cuecas que vão por baixo das hoses - à direita.


É possível imaginar o por que de ser difícil identificar se as calças das ilustrações da era viking são hoses ou não.

Eu não recomendo usá-las em grandes quantidades num mesmo grupo, já que calças parecem ser a grande maioria dos achados e exceto a de Hedeby, as outras são sempre de outros períodos, anteriores, como a de Matres-de-Veyre, centro-sul da França(século 2), ou posteriores como a própria representação acima da Bíblia de Morgan/Maciejowiski. Porém, é interessante de se pensar em uma como uma alternativa às calças, além de serem extremamente mais práticas e consumirem menos tecido, já que as braies podem ser feitas com um grande retângulo de tecido mais barato que não vai ficar visível. Então eu recomendaria apenas para recortes mais estudados e sempre tendo em mente que existe apenas uma perna de uma calça dessas encontrada no período e região relevante pra Era Viking.

Algumas calças na arte da época e de achados arqueológicos, são como meia-calças, como disse ali na parte dos sapatos, então eu não desencorajaria o uso dessas, mas recomendo aos iniciantes que usem partes separadas pra terem uma chance de "edição" maior com o tempo. Ou então calças com pés integrais que possam entrar dentro de sapatos. De todo modo, muitas vezes os pés são costurados à parte, então não chega a ser um grande problema. E existem calças assim desde o século 2, com Thorsberg, até sabe-se lá quando, já que o homem de Bocksten também usava uma dessas no 14. E, claro, embora mais presente na moda feminina, estão em uso até hoje. Então assim, é uma questão de escolha pro novato, mas pensem em algo que sejam confortável, prático e que vocês não vão se arrepender depois.

Finalizando as calças, existem também as winningas ou putees. São longas faixas de lã enroladas na canela pra manter a roupa bem junta à perna. Geralmente são presas com ganchos triangulares ou em forma de gota que ficam costurados ou amarrados à ponta da faixa. Eu não faço muita ressalva a essas roupas, independente de recortes, mas acho que pro iniciante é melhor focar em outras coisas antes de providenciar winningas que não serão mais substituidas.

Os tecidos que você deve procurar são linho e lã, apenas. Fontes escritas e materiais apontam o uso de ambas e mais nada. porém, todavia, contudo, quando uma fonte material é descrita como "linho" ela se refere a qualquer tecido de origem vegetal, incluindo tramas mistas, que talvez houvessem na época para as populações mais pobres. Cânhamo era usado pra tecidos que não fossem acabar em roupa (afinal aquilo coça), por exemplo, mas um escravo talvez não tivesse muita opção. Algodão talvez pudesse ser vendido a preços bem caros no norte da Europa, já que era produzido em áreas de cultura islâmica ou no Império Bizantino. Mas a menos que você use uma roupa com influências islâmicas/bizantinas no próprio corte, o que é perfeitamente possível, evite algodão porque visualmente é muito distinto do linho e principalmente da lã.

Se você também acha que linho e lã puros são caros, bem vindo ao clube. Mas se você é menos radical sunita do reenactment do que eu, existem tecidos mistos de linho a um preço muito mais acessivel. E a aparência é bastante ok. Algumas das minhas túnicas de linho misto, quando colocadas lado a lado com as de linho puro, enganam muito bem. E moramos no Brasil, país tropical, calça colada de lã é meio... complexo. Mas eu recomendo, quando possível.

Lã, infelizmente, é caro. E lá de qualidade é mais ainda. Embora algumas coisas role fazer com feltro de lã (não aquele feltro com vários nomes politicamente incorretos), é difícil de se encontrar e não é bom pra roupas que ficam grudadas no corpo. Coça, esquenta e rasga. Mas, pra uma sola de calça, é mais ok.

Tecidos pra calças podem ser lisos ou com padrões tecidos, como diamantes, aqueles ">>>>" listras e afins. Evite xadrez com muitas cores e coisa e tal. Além disso, assim como pra túnicas à seguir, não use tecidos pretos. Apesar de existirem tintas pretas para pinturas de pergaminho, madeira, até de barcos, não existia uma forma de tingimento que mantivesse a cor preta por muito tempo no tecido. Na primeira água que batesse já ia desbotar e levando em conta que estamos falando de regiões onde neva, que são cobertas por rios, lagos, mares e o Atlântico Norte, água é o que não faltava pra tirar a cor dessas roupas.

Se seu recorte é mais neutro, use como decoração no máximo uns tablet weavings ou ganchos pra winningas sem desenhos, ou com padrões geométricos mesmo, lembrando que qualquer decoração é sinônimo de status, independente de época e local. Isso inclui tecidos com padrões.

Túnicas: basicamente uma camiseta longa que termina em algum ponto entre o joelho e a cintura. Essa parte é bem mais fácil de escrever que a parte das calças, já que embora existam várias túnicas e nenhuma seja igual à outra, são bem mais uniformes, mesmo que de vários tipos.

Se for ver, túnicas parecidas já eram usadas pelos germânicos que encheram os sacos romanos e continuaram em uso até o século 15. Lembrando que o Brasil foi "descoberto" no 16. Então pensa que túnica é um negócio persistente. Ainda mais se for pensar que elas estavam em uso lá na Noruega até no Egito, da Rússia à Islândia e Irlanda. Pensa nisso.

Das túnicas do nosso período, as diferenças estão nas nesgas - ou "gores" -, comprimentos e golas. Além da construção básica, claro.

Um tipo possui as tais nesgas, que são triângulos na barra. Como elas terminam abaixo da cintura, é natural que tenham algum esquema pra não rasgarem quando você abre a perna. E você costuma abrir a perna pra, sei lá, andar. Esses triangulos ficam geralmente nas laterais ou nas laterais e nas faces (frente e trás). Sempre em números pares. Bom, às vezes são em forma de trapésios, com pregas e tal, mas vou facilitar aqui e cortar esses. Às vezes cada triângulo é formado por outros dois menores, pra economizar tecido, às vezes são inteiriços. Às vezes no lugar dos triângulos as faces alargam nas laterais, mantendo a mesma aparência geral da túnica, mas com menos partes e a necessidade de usar tecidos maiores. Às vezes... Enfim. Sabe a imagem da Bíblia de Morgan que eu coloquei ali em cima pras calças? É aquilo ali. Mas também é o que tem aqui em baixo:


(Essa montagem foi tirada de http://awanderingelf.weebly.com/. Mesmo sendo imagens achadas na internet, eu assumo minha preguiça em juntar todas numa só imagem e acho que os créditos são importantes. Olhem o site, aliás, se quiserem ler muito sobre roupa.)

Moselund e Kragelund ficam na Dinamarca, para fins de localização. Guddal e Skjoldehamn, Noruega. E na arte do período existem diversas com a mesma aparência da França, Alemanha, Inglaterra... Existem túnicas similares na Groenlândia, como disse, no Egito e por aí vai. E embora essas da montagem sejam séculos 11-12, outras de outros períodos são basicamente iguais.

Outro tipo de túnica é a que não possui as nesgas. Então elas tem aberturas nas laterais, como essa abaixo:




Pois é, eu sempre falo dela aqui no blog por ela ser muito legal. Na reconstrução ali do lado direito dá pra ver o cortezinho na lateral que falei. Essa é a Túnica do Homem de Bernuthsfeld, oeste alemão. Data do século 8. Imaginem a reconstrução dela como uma túnica comum no período, porque era. Embora a original nem tanto, claro.

A túnica de Bernuthsfeld é muito parecida no formato que uma de Thorsberg, com a mesma datação das calças. E também parecidíssima com uma de Guddal. É uma tradição paralela à túnica com as nesgas, que a acompanha nos mesmos lugares e épocas.

O que dá pra imaginar é que essas sem nesgas sejam mais usadas por pessoas com menos posses e as outras com pessoas de mais posses, mas não é uma regra, já que São Francisco de Assis usava túnicas com as nesgas, feitas com muito tecido e muitos retalhos. E a de Thorsberg, embora de uma época bem anterior à Era Viking, feita com lã de padrões bem elaborados, assim como algumas do cemitério de Guddal. Mas o que se precisa é bom senso: um homem de posses talvez usasse uma túnica com menos tecido por praticidade. Um guerreiro não ia usar sua melhor túnica pra rasgar numa expedição de saque. E eventualmente quando tivesse remendos de mais, talvez um rei daria sua túnica velha pra algum servo mais querido. Isso é importante: pessoas tinham mais de uma roupa na época e óbvio que nem todas eram iguais.

Talvez essas sem nesgas, cheias de remendos, fossem usadas como "undertunics", mas muitas vezes esses homens achados mumificados em pântanos só vestem uma camada de roupa, mesmo que estejam com capas e gorros. É difícil de afirmar.

A outra diferença é a gola. Como vocês podem ver pelas imagens, existem diferentes estilos de gola. Nenhuma é 100% igual à outra. Então "crossovers" entre os estilos não é necessariamente um problema.

Eu usaria - se eu fosse um iniciante hoje - uma túnica sem nesgas, independente do meu recorte. Faria uma túnica de linho, que chegasse até um pouco acima da metade das coxas. Larga, isso é importante. Sempre multiplique a medida da sua cintura por pelo menos 1,25 se quiser algo confortável e que não rasgue ao vestir e despir. A gola eu faria como a de Moselund, que é de longe mais fácil de ser feita, mas algo redondo, como a da ilustração da Bíblia de Morgan também é ok pro período viking e ainda mais fácil de se fazer, mesmo a bíblia tendo sido feita 200 anos depois de a ponte de Stamford.

Pra ter uma customização, você pode escolher um tecido mais legal, fazer uma costura decorativa, até bordados, como em Mammen (Dinamarca, século 10). Ou costurar os tablet weavings nas bordas também. E a mesma regra vale aqui: decoração fica sempre algo específico, você fecha o recorte, mas abre possibilidades com isso. Estude antes de decorar algo.

Tecidos vai a mesma regra que as calças. Mas embora existam túnicas de lã, galera, Brasil. Não sofra à toa.

Cinto: diferente dos nossos atuais, um cinto desse período geralmente é mais longo e mais fino, embora toda regra tenha exceções.

Você vai precisar de um cinto pra prender a calça no lugar e um pra segurar a túnica, sendo o primeiro "invisível" no recorte, então na falta use um moderno mesmo. O segundo precisa estar certinho.

Existe uma caralhada de formas de fivela, pra não ter erro, use uma em forma de D, sem adornos, que estará correto pra qualquer período na história dos cintos. Vai de ferro mesmo, ou de QUALQUER liga de cobre. "Bronze", na arqueologia se refere a "liga com maior parte de cobre e sabe-se lá o que mais". Sério. A menos que tenham uma análise da composição, que não é sempre que fazem.

Além da fivela e do couro, existem "enfeites" pra cinto. Sabe o que eu falei pra decoração? Então, vale aqui. Não importa se você se decidiu que quer fazer um cara de Hedeby e achou um cinto completo de Hedeby. Decoração também significa classe social também. Então pensa direito nisso que é um negócio que amarra de mais o recorte.

Por fim existem os "strap ends", que são ponteiras pros cintos. Não são obrigatórios, claro, mas facilitam o uso um bocado. Eles deixam a ponta rígida e pesada, então passam mais fácil pela fivela e deixam o couro esticado sempre. Caras, esses dias eu baixei uma tese de doutorado de 530 páginas sobre strap ends no atual Reino Unido. Existem MUITOS estilos e formatos pra esses negócios, então tomem cuidado pra não comprarem coisa errada pros cintos de vocês, porfa. Eles são decorativos ao extremo. É a função principal, além de esticar e passar mais fácil. Então, a regra se aplica aqui mais do que nunca.

Uma imagem de algumas fivelas e ponteiras de Birka vai abaixo, pra ilustrar isso direito.


Pro iniciante: Um cinto com uma fivela de ferro ou liga de cobre (vale zamak aqui, não esquenta tanto), com mais ou menos 1,5-2cm de largura, presa no couro tanto com uma dobra da tira costurada nela mesma ou com uma chapinha de latão/cobre/outra liga de cobre que não estilhasse. E que seja no máximo uns 30cm maior que a circunferência que ele vai prender. Não adianta fazer um cinto que chegue até o chão, isso não existe em nenhuma representação do período viking. Pra ponteira eu evitaria ou faria uma de latão, entre 4 e 7cm de comprimento, com a largura do couro, com formato de U e com uma decoração bem simples de triângulos, círculos-e-pontos, argolas e linhas (não necessariamente tudo isso junto). Ou uma de ferro reta dobrada ao redor da ponta.

Couro aqui procure atanados/soletas tingidos ou vaquetas. Desaconselho outros couros.

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Bom, esse post me levou praticamente um dia pra ser escrito, então não sei quando vou continuar com a parte 2. Mas uma hora sai.

De novo, não pretendo esgotar nenhum assunto, só dar uma pincelada pro iniciante saber o que fazer e pro experiente conseguir criar um "método" de decisão de recortes que talvez funcione pra ele assim como funciona aqui.

E a vida segue, até o próximo.

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