quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Como montar um kit - Parte 2: Periféricos

Seguindo, depois de dois anos, com a postagem anterior, vou falar sobre os periféricos de um kit para os séculos 8-11 (algarismo arábico mesmo, porque isso não é uma publicação acadêmica e fica mais fácil de ler).

Por periféricos eu digo vários utensílios, peças de roupa e afins que podem ser retirados e trocados com facilidade do kit sem descaracterizá-lo. Além, é claro, de coisas que não ficam o tempo todo no corpo e que apesar de comporem um recorte (ou não, já que tento fazer algo mais neutro aqui) não são peças fundamentais para o reenactor. Muitas dessas peças ficam de lado durante uma recriação, você provavelmente vai deixar algumas delas na sua tenda e só pegá-las quando a necessidade surgir e por aí vai.

A lista que segue é mais sobre essa parte, então dêem uma olhadinha na Parte 1 pra ver o resto das coisas.

Bolsas/pouches
Capas
Gorros
Utensílios "primários"
Utensílios "secundários"
Facas/ferramentas
"Enfeites"

Dessa vez, porém, vou me focar em alguns exemplos mais específicos, já que são coisas que podem acabar gerando anacronismos meio bizarros quando colocadas juntas no caso de uma lista tão grande. Diferente de vestimentas, que são fundamentalmente voltadas pra praticidade e acabam não sofrendo tantas alterações ao longo dos quase 300 anos da Era Viking, outros objetos muitas vezes sofrem alterações enormes em menos de uma geração, por uma simples questão de moda ou "tendência", mesmo que fossem mais duradouros que na nossa sociedade atual.

Mas pense só: a calça jeans e a camisa social são basicamente as mesmas sem muitas mudanças faz um baita dum tempo. O design de um celular, por outro lado, muda a cada ano, independente da funcionalidade. Um smartphone de 3 anos atrás tem as mesmas limitações de design que um que foi lançado ontem, mas o fato de a tela ser 3 ou 7mm mais larga ou mais estreita, mesmo sem ser uma necessidade, serve pra que visualmente você saiba que é um modelo com um processador ou uma câmera com bem mais potência. É como um carro que muda o formato da lanterna, só pra diferenciá-lo do modelo do ano anterior.

Por isso vou mais comentar sobre algumas possibilidades, sem necessariamente localizar em século e nome do achado (se não fico a vida inteira aqui), mas focar em explicar um ou outro exemplo com as referências do que é mais universal.

Mas pensemos que a nossa sociedade não é tão diferente assim das sociedades que reconstruímos. Prender a capa com um broche cheio de ouro e granadas em pleno século 9 certamente mostraria que você tinha mais dinheiro do que um cara que usava um mais discreto de prata, mas o primeiro seria visto como  hoje vemos um riquinho excêntrico que usa um colete com relógio de ouro preso na corrente dentro do bolso como se estivesse em 1915: demonstra riqueza, mas é cafona. E como o reenactor, a menos que tenha plena consciência do que está fazendo, tenta recriar mais o típico do que os pontos fora da curva, eu não recomendo.

Então, às peças.

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Bolsas: Como vocês podem ter percebido pelas calças na Parte 1, calças do período não tinham bolsos. Então eles tinham que usar outra solução pra não ficar sempre segurando coisas importantes nas mãos.

A lógica é a mesma de quando uma mulher usa um vestido hoje em dia. Ou essas calças com esses bolsinhos decorativos. Ou calças muito coladas em que um celular mal entra. Quantos de vocês já viram, ou quantas de vocês já fizeram de guardar o celular, a carteira ou dinheiro no sutiã?
Pensemos nas calças do período mais como grandes meias que protegem as pernas do que calças no sentido contemporâneo. E pense nas bolsas da forma que as pochetes estavam em alta nos 90.
Mas que tipos de bolsas eram usadas? E pra quê?

A resposta pra primeira pergunta é sempre chata: uma caralhada. A resposta pra segunda: muito do que usamos hoje em bolsos e bolsas, mas em versões menos tecnológicas, claro, que explico mais pra frente na parte dos utensílios.

Mas existem bolsas que são nada mais do que um pedaço de couro furado nas extremidades com uma cordinha que mantem tudo junto à bolsas revestidas com jóias e pedras preciosas, com vários e vários bolsos e divisórias e coisa e tal. inclusive coisas que são parecidas com carteiras modernas, mesmo que obviamente não fossem pra colocar documentos, mas pequenos objetos de todos os tipos. Curiosamente (não na verdade) hoje a situação é igual, não?

Salmo de Harley, Século 11, Folio 66v. Um dos suplicantes carrega uma bolsa grande. A mesma ilustração, com algumas diferenças, também surge no Salmo de Ultrecht, início do século 9, de onde possivelmente foi copiada.
Alguns tipos, como as famosas pouches em meia lua ou bojudas no meio reenactor, são bem mais comuns num período pré-viking e depois dele, embora reapareçam com formatos diferentes nesses períodos posteriores. As pouches propriamente ditas que são comuns na era viking são quase todas de formatos mais longos do que largos e geralmente surgem mais em áreas com forte influência oriental (entenda "leste" ou "Ásia Central", ok? Nada de Ásia oriental), como Suécia, regiões do leste da atual Polônia, Rússia, Hungria e afins, então pro iniciante, eu não recomendo muito, porque te coloca num lugar e num espaço de tempo específicos.

De outros tipos também tem bolsas com formato de lira, decoradíssimas com pedaços de metal, bolsas com "abridores" de madeira de tamanhos que variam de 15 até 40cm, pedaços de tecido que simplesmente embrulhavam as coisas e por aí vai, a variedade é muito grande e não "classificável", porque era simplesmente gente tentando carregar as coisas do dia a dia da forma que podiam. Daí surgem estudos tipológicos sobre bolsas, inclusive.

Essas com alças/abridores, tem evidencia na Dinamarca/Noroeste da Alemanha e Suécia durante o período, mas elas surgem em ilustrações até no mundo muçulmano em períodos mais tardios. Normalmente se pensa nelas utilizando tecidos, mas couro também é uma possibilidade, embora couro o bastante, de uma boa qualidade, pra fazer uma dessas talvez não fosse acessível às classes mais humildes. Outra coisa é que eu não recomendaria o uso disso por recortes mais bélicos por assim dizer, simplesmente porque a alça é relativamente frágil e quebraria fácil.

Alças de bolsas de Hedeby. Todas as alças encontradas em Hedeby eram de madeira, mas existem análogas em Birka e Uppsala, feitas de madeira e ossos (possivelmente também chifres de renas e veados).

Reconstrução encontrada em https://nattmal.wordpress.com/2015/05/14/haithabu-bag/ com todas as informações que você vai precisar pra esse tipo de bolsa.
Agora, um tipo de bolsa que é onipresente desde o período clássico grego (e possivelmente bem antes) até hoje em dia em alguns lugares, cobrindo áreas de todos os continentes, basicamente, são as tais "drawstring pouches". Leia-se "saco com uma tira na boca que faz ela fechar". Elas existem em diversos materiais e tamanhos, em diversas classes sociais e contextos. É o que eu realmente sugiro pra todo reenactor do período viking que não possui um recorte muito bem estabelecido e mesmo pra reenactors mais chatões que não querem cometer gafes.

Imagem ilustrativa retirada da internet. Não corresponde a nenhuma original, embora a idéia seja essa.
Em York do século 10, por exemplo, se tem um achado de uma feita de seda púrpura, o que é prova mais que significativa de que gente rica também usava. Em contrapartida, na Groenlandia se fazia com testículos de carneiros, que já vinham praticamente no formato ideal "de fábrica". O hábito provavelmente era o mesmo na Islândia.

Uma bolsa de York, século X, feita em couro de ovelha ou cabra
O formato é uma questão também "livre". Às vezes um retângulo dobrado, costurado nas laterais e com os furinhos pra um couro ou cordão, como em Hedeby, século 10 também, às vezes um círculo grande com furos ao redor das extremidade onde você passa uma corda que entra e sai e quando puxa, voilá! Uma bolsa! Esse último método também com achados em Hedeby e York com datação entre 9 e 10. Fora fragmentos de 12 túmulos em Birka com pedaços de couro que foram interpretado como bolsas assim, embora nunca tive acesso aos formatos delas. Essas de Birka guardavam moedas, contas de vidro, pedaços de ligas de cobre, pesos comerciais, pingentes, espelhinhos e tal, por exemplo, ou seja, dinheiro e coisas ligadas à profissão que se usava diariamente, igual a hoje.

E tem de todo tamanho e continuou em uso por todo o resto da idade média, idade moderna e tal. Então na minha opinião é a melhor coisa que você pode usar pra guardar suas coisas. Se não cabe tudo numa só, use mais de uma talvez, mas sempre foque em praticidade: uma árvore de Natal parada pode funcionar, uma que se mexe pode começar a esbarrar nas coisas com seus enfeites e eventualmente alguns vão cair e você só vai reparar depois, portanto tenha parcimônia.

Geralmente o cordão usado pra fechar a bolsa é usado pra amarrá-la num cinto ou às vezes dá até pra usar como colar. Então não tem muito erro, mas tem também a possibilidade de se costurar uma alça pra que não se tenha que tirar a pouch do cinto sempre que for mexer nela. Se não quer que fique à mostra por ter alguma coisa de valor, como dinheiro que você está mantendo no meio de uma feira e tal, coloque no cinto da calça, sob a túnica e ninguém nem vai ver. Aliás é como faziam antigamente, dependendo do contexto. Sempre existiram alguns sujeitos com dedos leves por aí.

É a solução mais historicamente correta, universal pra qualquer período e classe social, adaptável em termos de tamanho e fácil de se fazer, porque você não precisa nem saber costurar nem ter ferramentas específicas além de uma tesoura, se for fazer uma redonda. E o legal é que se você não usa couro por algum motivo, ainda pode estar historicamente correto usando tecido.

Agora, se você realmente curte as bolsas mais "sólidas", feitas inteiramente em couro, não tem jeito, recomendo um estudo aprofundado da área e período que deseja recriar, já que decoração, formato e estilo de suspensão costumam ser muito dependentes de contexto cultural e social e isso te amarra a um recorte mais específico.

Se tem muita vontade de fazer algo pra carregar as tralhas num recorte mais civil/pacífico, use ou uma drawstring ou uma como as de Hedeby. Quanto mais decorada, maior sua classe social. Evite entalhes nas alças, bordados e tecidos com cores muito vivas se você não tem noção do seu recorte e ficará bem. Bordados em estilos artísticos regionais, entalhes mais minuciosos, seda, peles felpudas e afins são sempre boas opções uma vez que seu recorte estiver bem definido.

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Capas: Qualquer pedaço de material macio pode ser chamado de capa. Muitas são pedaços de lã grossa retangulares, outras podem ser forradas com peles de animais, decoradas com seda, fios de ouro e tudo o mais que se possa pensar. Algumas são forradas com tecidos mais finos, algumas arrastam pelo chão, outras aparentam ter um gorro emendado. As possibilidades são quase infinitas.

Tapeçaria de Bayeux, século XI. Notem as duas possívels maneiras de prender a capa: uma no ombro direito e outra no centro do peito.
A melhor coisa das capas é que assim como as túnicas, aparecem bem visivelmente na arte do período, sem muita chance de serem confundidas.

Hexateuco inglês, também século XI
A quantidade de tecido usada numa capa serve também de indicador de pobreza ou riqueza. Basicamente, quanto mais tecido, mais trabalhada, anatômica e com melhores tecidos, mais rica a pessoa usando aquela capa é. Por outro lado, nas ilustrações do período é normal que as capas sejam todas mais ou menos do mesmo tamanho e sempre grandes. Isso porque os ilustradores normalmente eram membros do clero e as pessoas retratadas sempre tinham alguma importância. Então da mesma forma que um milionário nem sempre presta atenção nas roupas de um mendigo, um monge, por exemplo, não ilustraria um pobre com 100% de fidelidade, isso nas raras ocasiões em que ilustraria a pobreza (além, claro, da pobreza num sentido litúrgico, santificado e tal, mas esses pobres ainda são cheios de uma aura de dignidade beata e não "pobres comuns").

De qualquer maneira, pegue um retângulo grande de alguma lã grossa, mais ou menos 1,5m x 2,5m e se embrulhe. Se quiser algo mais "estiloso", corte-a num meio círculo. Se quiser algo mais ostensivo, forre com linho ou pele, ponha weavings ou bordados nela e por aí vai.

Na Dinamarca, nos pântanos de Hald, existe evidência de capas feitas inteiramente de peles de animais. Infelizmente não tenho acesso a melhores pesquisas sobre o tema e não sei de que tipo de animais as peles pertencem, porém é sabido que se criavam ou caçavam diversos tipos de espécies justamente pelas peles, como ursos, ovelhas, coelhos, gatos (estes inclusive se popularizaram no norte da Europa justamente pela pelagem e carne) e por aí vai. Além disso, é de se imaginar que comerciantes de peles utilizassem seus produtos pra mostrarem a qualidade, embora peles de animais fossem um produto custoso e portanto reenactors tentando ilustrar uma pessoa comum do período deva evitá-las.

Por mais que a lã seja mais cara hoje do que o linho, antigamente dependendo do local era o oposto. Um pastor teria lã sempre disponível, fosse para tecer ou fazer um feltro e essa é uma boa solução pra um reenactor recriando homens mais pobres. Uma lã melhor tecida indica muito tempo gasto na confecção e sugere uma pessoa mais abastada, ou pelo menos um homem livre.

Uma "colcha de retalhos" também é uma possibilidade para castas mais baixas.

Por mais que um caçador tivesse fácil acesso a peles de animais selvagens, tem que se lembrar que muitas vezes a área era propriedade de um determinado senhor local e por isso o caçador não teria permissão de utilizar essas peles sem pagar o devido tributo ao "dono" da floresta onde caçou, então a ideia de usar um monte de peles rasgadas como capa deve ser evitada, ou adotada por pessoas que queiram claramente retratar alguém que viva à margem da sociedade (isso reflete todo o resto do kit), um fora da lei ou algo do gênero. Usá-las dentro de um contexto mais inserido socialmente não é impossível, no entanto, mas aí seria mais sensato usar peles de animais domésticos, usá-las como forro de uma capa de tecido, como cobertas e afins.

Gorros/Chapéus: Se está frio, proteja sua cabeça além do corpo. Isso é óbvio. E pensando em invernos rigorosos e nenhum aquecedor elétrico, como era esse período, não é de se estranhar a ideia de cobrir a cabeça com gorros e chapéus.

Existem poucos sobreviventes materiais do período, mas a arte normalmente está cheia de ilustrações que sugerem aliens humanóides de cabeça deformada ou acessórios de vestuário.

Daí temos que categorizar os gorros. Por um lado são como chapéus estilo o do Papai Noel (basicamente aquilo mesmo, embora sem o pompom, mas talvez?), depois outros tipos de chapéus mais "planos" (é mais fácil ilustrar do que explicar, segue lendo), daí depois como um gorro que cobre os ombros, parte do tórax e que tem um buraco por onde o rosto fica visível.

Do primeiro tipo não se tem evidência arqueológica convincente, porém aparecem (embora eventualmente possam ser representações de elmos, por isso há que se ter cuidado) em diversas representações artísticas do período como a Crus de Middleton, na Inglaterra ou a famosa estatueta de Freyr de Rällinge, Século 11 na Suécia, entre diversas outras.

Freyr de Rällinge. Apesar da possibilidade de ser um elmo com uma liberdade artística bem grande, é bem capaz que seja um gorro bem natalino, não?
É de se imaginar que as pessoas tivessem acesso a qualquer trapo pra cobrir a cabeça e é relativamente barato fazer algo assim com sobras de lã grossa cortada em dois ou mais de triângulos ou afins. Porém o fato de aparecerem na cabeça de deuses e figuras lendárias talvez signifique algo. De qualquer modo é algo simples o bastante e ajuda a manter a cabeça quente, afinal.

Possível reconstrução mais simples encontrada em https://www.wulflund.com

Uma possível reconstrução mais elaborada. Infelizmente não achei o autor.
Portanto, eu faria algo assim de lã para me proteger do frio se fosse alguém mais pobre, mas sem nenhum tipo de decoração. Inclusive sem uma barra decorada com weavings.

Se for forçar um pouco a barra e classificar como o mesmo tipo de chapéu, existem alguns feitos com naalbinding, uma espécie de crochê (pra falar bem simplificadamente, mesmo que seja diferente). Um chapéu atribuído a São Bernardo de Claraval, século 12, e outro de São Simão de Trier, século 11, foram feitos dessa maneira. Ambos hoje são guardados como relíquias e não consigo encontrar uma imagem, mas basicamente são parecidos com toucas de lãs modernas, mas menos thuglife elastano.

O segundo tipo de chapéu segue a mesma ideia, mas com um topo, então não seria necessariamente algo triangular, cônico, mas parecido com a parte de cima de um quepe, ignorando a aba. Existem alguns achados desse tipo de chapéu, ainda que pouca ou nenhuma evidência na arte, o que é o oposto do caso anterior. Um na Holanda e outro em Hedeby, pelo menos, embora o de hedeby talvez fosse outra coisa, mas é normalmente associado a esse tipo de chapéu.

William Short do Hurstwic usando um chapéu com o topo achatado.

Chapéu de Leens, Holanda. Datado entre os séculos 7 e 9.

Uma reprodução encontrada no Etsy, pelo vendedor Nnornir.

Apesar da raridade desse tipo de chapéu entre recriadores, é uma opção viável para qualquer classe social, dependendo da região. Tanto Hedeby quanto os Países Baixos se encontram a noroeste da atual Alemanha, então é possível que fosse uma moda regional, mas pelo menos para os recortes dinamarqueses cai até que bem.

Lembrando sempre que quanto mais "firula", mais rico o usuário.

Existe ainda um outro tipo de chapéu que foi encontrado apenas nos Países Baixos, contemporâneos ao de Leens, exceto por uma escultura de uma cabeça de madeira em uma igreja, datada do século 11 em Dublin, com um homem usando o mesmo tipo de chapéu que o chapéu encontrado em Aalsum. Infelizmente não tenho a imagem da estátua, mas o chapéu, apesar da construção diferente, apresenta um formato parecido com o de Leens, mas com um prolongamento que cobre a nuca e orelhas.

Chapéu encontrado em Aalsum, Países Baixos (500-900). Esse chapéu foi feito com 4 tipos de tecido de lã distintos, sugerindo que foi feito com retalhos.
Esses tipos todos são basicamente chapéus e eventualmente podiam ser decorados com peles de animais como descrito por Ibn Fadlan ou nas Njals saga e Ljosvetninga saga. Nas sagas é dito que esses chapéus são dados como presentes de reis na região da atual Rússia e Ucrânia e Fadlan visitou a Bulgária do Volga. Como não existem evidências pra isso e as sagas islandesas são bem específicas ao mencionar a região, é de se supor que no Oeste isso não fosse uma prática comum, portanto evitemos ao máximo os pêlos em chapéus, a menos que nossos recortes sejam russos, polanos e afins. Se você não tem ideia do recorte, não ponha pêlos e mesmo assim pode passar por um Rus, já que afinal, são presentes de reis e no caso de Fadlan, esse chapéu enfeitado é usado justamente pro funeral de um chefe, não usado por todos.

Agora, gorros a coisa facilita e complica ao mesmo tempo.

Fragmento de gorro de Hedeby e ilustração de pedra rúnica expostos no Wikinger Museum Haithabu
Achados arqueológicos dentro do período são apenas Skjoldeham, Noruega e Hedeby, atual Alemanha e Dinamarca no período. Ambos de lã. Fora do período existem similares nas Orkney (Escócia), em Bernuthsfeld e Thorsberg (ambos na Alemanha),  Bocksten (Suécia) e na Groenlândia, o que indica uma tradição contínua e bem espalhada, embora por toda a Europa esse tipo de gorro é bastante comum durante o fim da Idade Média.. Isso sem contar ilustrações, como o Salmo de Harley já citado aqui e várias pedras rúnicas em Gotland.

Surpreendentemente, apesar de ser um homem do século 14, todas as roupas do homem de Bocksten possuem paralelos na Era Viking. Seus outros utensílios, no entando, são bem característicos de tempos posteriores.
Alguns possuem uma espécie de cauda atrás da cabeça, outros não. As construções variam muito, o número de peças também. Algumas, como a de Hedeby, indicam que tufos de lã costuradas ao tecido, outras tem esses tufos na barra inferior, como uma encontrada nas Orkney (séculos 3 a 7). Mas a ideia geral é basicamente a mesma, então é uma aposta segura por parte dos reenactors, desde que não tenha características muito específicas (como o "babado" da Orkney, por exemplo).

Gorro encontrado nas Orkney, 215-615AD.
Num geral, uma cauda significa que você pode gastar mais tecido com uma coisa simplesmente estética. Além disso a cauda aparece mais retratada em pedras rúnicas, já que a cauda na montagem do gorro de Hedeby talvez seja uma leitura diferente do achado que a real. Ou seja, isso é algo associado a riqueza ou pelo menos. Então se não quiser passar essa ideia, use uma com uma cauda curta ou sem cauda nenhuma, como a de Skjoldeham.

Todas as evidências apontam o uso de lã, ou tecida ou na forma de feltro. Não existem evidências pro período, ainda que surjam posteriormente, pra gorros forrados internamente, mas não se pode excluir a possibilidade. Não há evid~encia alguma pra gorros feitos de couro.

Se não possui um recorte definido, use um tecido sem cores vivas e com a cauda curta ou inexistente. Se possui, a chance de customizar está em usar uma lã com padrões mais nítidos, cores mais vibrantes, talvez até enfeitar as bordas com weavings e afins.

Por último na parte de chapéus, existem chapéus para dias de calor também. Eles vem e vão em vários estilos desde antes de Cristo e ainda estão por aí. São basicamente chapéus de palha, talvez até couro, ou panos que se põe na cabeça pra evitar a luz em dias muito quentes. Aparecem em ilustrações do período, principalmente no século seguinte ao final da Era Viking, quando a vida de pessoas comuns começa a ser retratada mais frequentemente (embora não apareçam na tapeçaria de Beyeux), mas é fácil de dentender a ausência nos achados arqueológicos.

Bíblia de Morgan, século 13. Além dos chapéus diferentes, com cores diferentes, sugerindo materiais distintos, alguns camponeses tem panos simples na cabeça pra evitar a luz solar direta na cabeça.

Salmo de Eadwine, século 12. Um camponês sem calças, descalso e de chapéu afiando uma foice. Acreditem, ele ia sentir muito calor esse dia.
Utensílios primários e secundários: Não tem um nome mais genérico e ingrato que esse pra uma categoria, mas é o único que eu consegui encontrar pra descrever coisas tão díspares. Vai ter pouca foto aqui, mas é mais pra dizer o que você pode querer ter no seu kit que ajuda um bocado.

Basicamente se você for um reenactor hardcore, você vai querer fazer fogo com pederneira, costurar as próprias roupas, afiar as próprias facas antes de cortar a comida e por aí vai. E o que é primário ou secundário pra você pode alterar bastante de acordo com as suas habilidades ou interesses.

Uma pedra de amolar, um isqueiro pra pederneira, uma pederneira em si, um carretel de linha, agulhas de osso, latão, chifre ou seja lá o material, colher de orelha (ah, os ancestrais do cotonete... eram bons tempos), tesoura pequena (uma tesoura de tosquia em miniatura), uma sovela pra furar coisas ou limpar debaixo das unhas, um punhado de resina pra colar as coisas... A lista é infinita, mas num geral são miudezas que talvez você nem precise porque nunca usa.

No meu caso eu classifico como primário as coisas pra fazer fogo e pra afiar minhas ferramentas, mas veja bem, eu sou um ferreiro, um costureiro teria isso no fim da lista. Um isqueiro de aço, uma pedra de sílex ou qualquer quartzo que eu tenha a mão, fibra de juta/cânhamo/tecido carbonizado, pedra de amolar grossa e fina, resina de pinheiro pra colar cabos ou pra ajudar a iniciar um fogo... por aí vai.

Coisas que carrego comigo sempre. Um EDC reenactment.

Como secundário eu diria retalhos de tecido, linha e agulha que sempre fazem falta, mas eu posso esperar voltar pra casa pra costurar. Higiene pessoal como colher de orelha ou sovelas, mas de repente o evento é de um dia só, então eu posso tomar um banho assim que voltar pra casa ou onde eu estiver hospedado, pentes ou pequenos instrumentos musicais pra passar o ócio, mas posso me arrumar antes de sair de casa ou passar o tempo conversando... por aí vai. Mas se eu for alguém que trabalha com couro, a linha e agulha são número um e enfim.

É bom ter tudo isso em mente na hora de criar um kit pra não passar necessidade em eventos longos, de dias. Mas não é nada necessariamente imprescindível, você pode viver muito bem sem, entendem? Mas se for fazer, tenta buscar referência de como essas coisas são pra região que você for recriar. E se quiser ficar neutro, tenta coisas sem formas rebuscadas e sem enfeites. Uma pedra de afiar perfeitamente retangular e sem desenhos, um striker basicamente reto ou em forma de C e tals. Mas linha, agulha, anzol... Essas coisas são meio que comuns em todos os lugares com formas bem simples, mas acreditem, sempre tem como encher de bling, daí é bom pesquisar se quiser algo mais legal ou evitar se não tiver um recorte.

Facas: Isso poderia estar como utensílios, já que estou falando das facas de uso geral e não armas, mas eu acho a vida sem uma faca durante uma recriação tão impossível (comer, cortar pequenas coisas como tecidos e linhas, etc...) que ela merece uma categoria à parte. Afinal, "Knívleysur maður er lívleysur maður", não é mesmo? E elas dizem muito sobre o usuário.

Basicamente se você não tiver um recorte específico, evite coisas muito cheia dos gueri gueri.  A faca ilustrada na seção anterior seria basicamente perfeita se não fosse aquela linha gravada na lâmina, porque aquilo indica um trabalho acima da média, é decoração. Como meu recorte é o de um ferreiro, faz sentido eu ter um trabalho com uma coisinha a mais pra dizer "olha, meu trabalho permite eu perder tempo com enfeite e cobrar mais por isso". De resto, ela é bastante simples.

Facas "universais" durante toda a era Viking. Da groenlândia à Rússia, da noruega à África, esse formato de lâmina existe desde a idade da pedra e nos acompanha até hoje. A bainha, no entanto, é baseada em bainhas do Sul da Escandinávia, séculos 9-10.
Vários lugares e períodos possuem características muito marcantes, mas uma faca "coringa" tem o dorso mais ou menos reto, o gume formando uma barriga, é pontiaguda o bastante, pequena o bastante (entre 5-15cm) e com um cabo de madeira simples. Não se reinventa a roda. Porém elas existem em alguns locais ao mesmo tempo com facas "nativas", que são tipos regionais e bem localizados temporalmente de lâminas que só devem ser usadas se você tiver um recorte bem específico.

Outra coisa que varia enormemente é a forma com que essa faca é mostrada. Bainhas são não só uma forma de transporte das facas, mas uma espécie de mostruário e isso vai pra além da biomecânica do objeto e está sujeita a variações culturais e sociais absurdas. Tal como cabos, claro.

As bainhas da foto, por mais que sejam especificamente feitas com base em achados dinamarqueses, são relativamente comuns em todas as áreas de interesse para recriadores da Era Viking. No fim do período, porém, existem diferenças regionais que devam ser observadas, especialmente quando se chega finalmente ao século 12, mas entre 800-1050 elas são bastante presentes, então é o que eu recomendo, independente da classe social.

Toda decoração (exceto linhas retas e padrões de ponto-e-círculo) amarra seu recorte e eu recomendo evitar se você não souber ainda o que fazer. principalmente desenhos e detalhes metálicos nas bainhas. Uma dessas pode te acompanhar em qulaquer recorte, então não amarre a faca a um lugar e período fechados a menos que saiba o que está fazendo.

Ferramentas: Isso eu ponho na lista pensando em artesãos que fazem demonstrações ao vivo, não faz muito sentido pra outros recriadores. E esse caso específico é só sugestão, coloque na sua listinha de coisas pro seu kit e tenta procurar as ferramentas do seu ofício comuns no seu período e região. Se não tiver um recorte, mas sabe trabalhar com algo, pega algum equivalente contemporâneo e dá uma camuflada e depois busca essas informações. Estude, estude, estude e estude. Estude.

Enfeites/jóias: Por último os "enfeites". isso é puramente estético, nada necessariamente funcional, mas acaba ornando com o recorte. Isso é coisa de por na lista, mas eu não tenho o que falar a respeito porque se não vou passar a vida inteira escrevendo e nunca mais vou ver a luz do dia, de tão extenso que é o assunto.

Jóias são sinal de status. É o que eu venho falando sobre a decoração das túnicas, dos sapatos, dos cintos, de tudo. mas isso é a decoração sa pessoa. É um broche, é um colar, uma coroa (por que não, senhor reizinho?) é uma colher de ouro ou seja lá o que for. Claro que existem broches pra prender capas, fivelas de cintos e afins, que todos tem, mas a regra é clara MAIS UMA FUCKING VEZ: não decore se não sabe o que vai fazer. E se você acha que algo sem decoração vai ficar tosco, ok, eles também achavam e NÃO USAVAM.

Digo isso de modo eloquente porque vejo principalmente no caso feminino uma necessidade de procurar os famosos broches pra prender os aventais e encher de contas de vidro e coisa e tal... E assim, nem toda mulher usava meio quilo de prata exposto no peito. Aliás, a esmagadora maioria não usava. Nem todo homem usava um cinto cheio de cravos de bronze com formatos bonitinhos. Nem toda pessoa usava martelos ou crucifixos no pescoço feitos de metais preciosos, âmbar, vidro e essas coisas.

É um contrasenso enorme um reenactor com um recorte super humildão aparecer com um Mjolnir de prata e contas de vidro bem expostos. É como um mendigo usando um Rolex original na rua. Não cola bem. Então tenha bom senso.

por isso eu digo que a primeira coisa a se fazer é definir uma classe social, ela te impõe limites, tal qual acontece hoje em dia e você fala "putz, só vou poder fazer minha túnica no mês que vem, porque esse tá apertado". Antigamente era igual e você não precisa gastar fortnuas pra ser um bom reenactor. Aliás, é mais fácil gastar fortunas e se tornar um exemplo de tudo o que não haveria no período.

Então sempre que for ter algum enfeite no seu set, seja uma cruz, seja um bordado, seja o que for, além de verificar se aquilo está de acordo com o seu período e região, veja se está de acordo com sua classe social. Um rei não usa fivela de ferro numa túnica surrada, um agricultor não usar seda púrpura com fios dourados.

E é isso. Talvez daqui a dois anos eu escreva de novo. Mas com a Vila Viking Brasil de portas abertas, acho que eu me empolgo e volto a escrever antes.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Como montar um kit - Parte 1: O essencial

Acho que já falei de mais sobre várias coisas relacionadas ao reenactment em si e então resolvi fazer um post para os iniciantes na atividade, mas que também é válido para os mais experientes. Quisera eu ter alguém me dando algumas dicas quando eu comecei, nem que fosse pra eu as ignorar, mas nessa quase uma década a coisa mudou muito e acho que pode ser um post útil pra bastante gente.

Um dos motores pra eu escrever esse post é o chat do pessoal da Old Norse, que reúne membros de vários grupos do Brasil e onde vira e mexe percebo que muita gente tem dúvidas do que pode ou não fazer, ou do que quer ou não fazer ou do que consegue ou não fazer. Afinal, vamos ser sinceros: reenactment é um negócio que pode ser bastante caro e pode ser mais caro ainda se começar indo pra direção errada.

Esse post é mais específico para a Era Viking/Carolíngia, porque é a época que eu conheço mais, mas claro que posso citar coisas de outros períodos quando for conveniente. E é óbvio que eu não domino todas as informações do período e vou me limitar na minha área de segurança nos exemplos, isso aqui não esgota o assunto e não chega perto nem de 1% de esgotá-lo, é apenas um "Crie seu kit for dummies".

*********

Bom, então você tá fazendo recriação histórica faz um tempinho, ou você já faz tem alguns anos e quer um kit novo, ou você viu uns malucos no parque e achou um troço maroto pra cacete e quer fazer, mas não entende lhufas. Serve pra todo mundo. O que você vai precisar?

A primeira coisa é fazer uma lista de coisas que o kit precisa ou pode precisar. Eu vou dar uma lista aqui pra ajudar vocês a pensar, mas é claro que ela não é 100% completa, mas é a que eu uso quando quero pensar nisso. Obviamente, por eu ser um homem e sempre fazer recortes masculinos, a lista que segue aqui é uma lista para isso. Fico devendo pras mulheres e - por que não? - homens que queiram fazer um recorte feminino.

Sapatos*
Calças*
Túnica
Cinto
Bolsa/sacola/pouch
Capa e broches
Gorro/touca
Utensílios primários (coisas para fazer fogo, pedras de amolar, etc...)
Utensílios secundários (objetos de limpeza pessoal, pentes, linhas, agulhas e retalhos para reparos, etc...)
Facas (de status, de alimentação, ferramentas)
Jóias/"enfeites"
Armas
Escudo
Proteções/armaduras
Objetos de ócio/festividades (tabuleiros de jogos, dados, drinking horns, etc...)
Objetos "comunitários" (panelas, baús, foles...)

A lista pode ser maior ou menor, dependendo do caso, claro. E obviamente uma pessoa não necessariamente precisa de todas essas coisas. inclusive, os itens sublinhados é o que acho que são "essenciais" pra alguém iniciante não se preocupar em fazer feio. TODO o resto pode ser dispensado e ir sendo adquirido com o tempo.

Depois, caso pense já num recorte, é pensar uma classe social. isso antes de determinar local e época. Classe social é a primeira escolha do recorte, ajuda a pensar todo o resto.

Mas ok, aí você gostou da lista, quer começar a fazer recriação amanhã, mas tudo o que eu falei foram coisas, você não tem uma idéia de que recorte você vai fazer, você não tem idéia do que é recorte, porque esse é o primeiro post desse blog que você está lendo, você sabe que você precisa de uma porção de coisas, mas não entende o motivo disso ou o que caralhos é uma pouch. Relaxa, vou explicar item por item com dicas e uma formação de um recorte o mais básico e neutro possível. E também alguns exemlos de "customizações" pra melhorar a aparência do objeto.

Dois adendos, como eu sou um chatão da autenticidade: Primeiro é que o bom senso deve ser mantido. Não adianta eu ter uma calça cheia dos bordados e tablet weavings com ouro e prata "porque é bonita" e vestir uma túnica feita de trapos e retalhos porque quer "ser um camponês". Você vai ficar ridículo, meu camarada. Ridículo pra valer. Segundo é que decoração raramente é neutra, ela sempre está ligada a uma classe social ou período. Se não se decidiu ainda sobre recorte, evite-as o máximo possível, a menos que sejam padrões geométricos simples, linhas paralelas, ponto-e-círculo e coisas assim. Agora, se você já tem um recorte definido, a lista se mantém, claro e você tem maior liberdade de escolher um estilo artístico contemporâneo ao que você se baseia, consegue usar objetos mais específicos que vão dando identidade ao seu kit e por aí vai.

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Sapatos: Claro que a lista começa dos pés à cabeça. Sapatos são sapatos, sem mistério pra isso. Eles cobrem o pé. Duh. Apesar de eu colocá-lo como item essencial, o asterisco ali significa que se você quer um recorte mais pobre, você pode andar descalço. Ou ainda embrulhar o pé com tecidos e tiras de couro. Existem algumas evidências pra esse tipo de coisa, embora sinceramente não me recordo a época e isso sempre acontece com gente das classe sociais mais baixas, como escravos. Outra opção é fazer calças que sirvam como uma meia-calça, talvez com um solado de couro ou com tecidos mais grossos embaixo. Embora existam vários exemplos físicos disso posteriores ao período, nas iluminuras francas do período carolíngio elas são bem comuns.

Existem vários estilos de sapatos e botas do período. Cano alto, curto, pontudos, arredondados, feitos com uma só peça, com duas, com três, fechados com laço, com botões, estilo sapatilha... isso depende muito de recorte escolhido. Vai só uma foto de reconstruções no museu de Hedeby pra terem uma idéia.


Mas se você quer um sapato e não pensou em nada de recorte, o que eu recomendaria seria um sapato como o da imagem abaixo. O exemplo é da atual Holanda e data de alguma data entre os séculos 6 e 8, então seriam pré-vikings, mas existem similares em diversos lugares e contextos como Staraya Ladoga (Rússia) séc. 7-9, Wolin e Gniezno (Polônia) séc. 9 e 10, respectivamente, York (Inglaterra) séc. 9, vários em Hedeby (atual Alemanha, embora no período fosse parte da Dinamarca) séc. 8-10. Outra solução é fazer a sola separada das laterais, como em achados dos mesmos locais, assim como de outros. Na arte, um exemplo que posso citar é no Salmo de Tiberius, do meio do século 11 de Winchester, Inglaterra, onde sapatos com costura frontal são vistos nas ilustrações, continuando essa mesma tradição.


A vantagem desse tipo de sapato é que ele é bastante comum por um longo período, que cobre desde antes até o fim da Era Viking além de uma localização geográfica bem ampla. É uma espécie de sapato coringa.

Mas se quiser outro tipo, recomendo que tenha um recorte melhor definido. E se já tiver um, pesquise bem mais a fundo qual estilo é mais comum na sua área, caso queira fazer algo típico, ou olhe as possibilidades dependendo do recorte em si.

Se for comprar, pergunte que couro o artesão usa. Não compre de quem não souber responder ou de quem falar qualquer coisa além de "atanado" sem se explicar, a menos que você conheça bem o vendedor e ele explique sobre a aparência do material. Já vi e usei no meu começo muitos sapatos feitos com couros camurçados, raspa de couro e outros por serem mais baratos para o artesão (me incluo aqui) e esses couros não possuem nem de longe a mesma aparência de um couro disponível no período recriado. Alguns couros já tingidos, como alguns usados em estofamento de carro, por exemplo, possuem boa qualidade e aparência, mas sempre é um tiro no escuro quando você não conhece o material e geralmente novatos não conhecem. Mantenha-se no "atanado natural" ou "veg/vegetable-tanned leather" que não vai ter erro. Ou, pra quem não se veste com produtos de origem animal, busque algum artesão qualificado que possa te indicar um bom sintético. Não é históricamente correto, claro, mas se você se sente mais confortável com isso, seja feliz com algo que pelo menos tenha boa aparência.

Pra customizar, rola tingir com tons diferentes, fazer uma borda com outro pedaço de couro, costurar as bordas com uma costura decorativa, costurar uma outra sola pra dar mais resistência, e por aí vai.

Calças: Também meio dispensáveis, dependendo do contexto, embora altamente recomendadas.

Existem poucas calças inteiras do período, bem menos que sapatos, por exemplo. E elas raramente são parecidas umas com as outras. O que podemos ver por representações artísticas sempre é complicado porque as túnicas sempre cobrem muito delas nas representações mais naturalistas ou, nas mais estilizadas, é confuso de mais discernir alguma coisa. Além disso, calças são tão distintas umas das outras e ao mesmo tempo possuem tantas coisas em comum até com calças tradicionais atuais que é difícil pensar em moldes e cortes corretos gerais. Eu vou dividir um pouco esse tópico de acordo com os tipos de calças do período, pra facilitar.

Em diversas pedras rúnicas de Gotland, uma ilha no mar báltico pertencente à atual Suécia, por exemplo, é possível ver calças que parecem com bombachas bem largas datando dos século 9-10. Abaixo tem uma figura de prata de Uppäkra, extremo sul da Suécia com uma representação dessas calças:



Além da Suécia, existem evidências artísticas de Oseberg, sudeste norueguês, que indicam o uso dessas calças no início do século 9. Existe pelo menos um fragmento de uma calça dessas de Hedeby do século 10. E fora do eixo do sul escandinavo, há um entalhe desse tipo de calça de Stockburn e em um em  Middleton, ambas no norte da Inglaterra, região que ficou "na mão" dos dinamarqueses durante o período.

Fontes escritas também dizem sobre o uso delas pelos Rus, no leste. Hudud al-'Alam, um persa no século 10 descreve que eles usam calças assim, feitas de linho.

O ponto é que ninguém desimportante era retratado na arte e essas calças precisavam de muito tecido para serem feitas. Some 1+1 e você pode deduzir que esse não é um tipo de vestimenta de gente pobre, mesmo que o achado de Hedeby tenha sido achado sob cisrcunstâncias peculiares, sendo calafetagem de barco. Outra coisa é que a referência sempre vem de locais do sul escandinavo ou com forte presença de pessoas do sul da Escandinávia. Mesmo as descrições do maluquinho persa, talvez fossem viajantes de outro lugar, assim como, veja só, ele mesmo. Se eu sou estrangeiro e só vou ao bairro da Liberdade em São Paulo, eu vou voltar pro meu país de origem achando que no Brasil só tem asiáticos e seus descendentes. Então a palavra de al-'Alam talvez seja um pouco mais válida pela descrição das idumentárias e costumes do que de quem fazia e usava. Mesmo porque em nenhuma ilustração da época ela aparece. Deem uma olhadinha nas calças da Crônica Primária Russa pra ter uma idéia, embora ela seja um pouco posterior à era viking.

Eu, em particular, só recomendo esse tipo de calça para quem queira representar um escandinavo ou alguém com fortes relações com a Escandinávia e principalmente alguém que tenha posses, porque tecido bom também não era barato na época.

Outro tipo de calças são as calças justas, embora elas não atrapalhem a movimentação. Quase toda a arte anglo-saxônica, franca e boa parte da arte escandinava do período as mostra em maior ou menor quantidade, eventualmente junto com outras "soluções" (como as famosas winningas). Ou mostra coisas que possam ser identificadas como tal, porque explicarei sobre as "chausses" ou "hoses" logo mais.

Thorsberg é hoje um lago no extremo noroeste alemão (que antes era Dinamarca) e possui pelo menos duas calças. Uma quase inteira e outra bem fragmentada. Ambas são diferentes entre si nos moldes, embora aparesentem certas similaridades e sejam parecidas visualmente. O problema é que datam dos séculos 2-4. Mas ainda assim considero uma possibilidade caso queira algo mais confortável do que dois tubos de tecido costurados no meio.

Eu também sei de um fragmento da calça de uma criança de Elisenhof, no sul da Alemanha, datada do século 8, embora eu não faço idéia de como esse fragmento se parece.

Além dessas, existe a calça de Skjoldehamn, numa ilha do extremo noroeste da Noruega. Bastante diferente na estrutura dos fragmentos, mas que mostra uma possibilidade extra de construção. Essa data do século 11 ou talvez até 12-13. Também fora do período em questão, embora não tem como dizer se era justa ou não. E como existem pedras rúnicas mostrando calças que não são "balão" e nem justas, talvez fosse uma dessas, com uma aparência mais parecida com as nossas atuais.

O uso desse tipo de calça é liberado pra praticamente qualquer pessoa, independente de classe social, década e localização geográfica dentro do período. É o que eu recomendaria como calça mais coringa. O corte dela é o de menos, já que não existem duas iguais, mas pense em como economizar o material, já que é a forma que eles faziam na época.

Por fim, temos as chausses/hoses. Talvez o que é representado nas ilustrações seja esse tipo de calça, já que a túnica cobre o que as diferiria das outras calças mais justas.

Hoses são basicamente tubos cônicos, geralmente costurados atrás ou na lateral que vestem as pernas e se prendem num cinto sob a túnica. Muitas vezes é mais fácil chamá-as de meiões, mas nem todas tem a parte do pé junta. Elas existem desde antes do período viking e tem seu auge logo em seguida. E existe pelo menos um achado em Hedeby de uma. Além de fragmentos da Groenlândia que datam de uma época imediatamente depois da Era Viking. Abaixo tem uma ilustração francesa do meio  do século 13 mostrando um homem de hoses à esquerda e um vestindo apenas as braies - tipo ceroulas ou cuecas que vão por baixo das hoses - à direita.


É possível imaginar o por que de ser difícil identificar se as calças das ilustrações da era viking são hoses ou não.

Eu não recomendo usá-las em grandes quantidades num mesmo grupo, já que calças parecem ser a grande maioria dos achados e exceto a de Hedeby, as outras são sempre de outros períodos, anteriores, como a de Matres-de-Veyre, centro-sul da França(século 2), ou posteriores como a própria representação acima da Bíblia de Morgan/Maciejowiski. Porém, é interessante de se pensar em uma como uma alternativa às calças, além de serem extremamente mais práticas e consumirem menos tecido, já que as braies podem ser feitas com um grande retângulo de tecido mais barato que não vai ficar visível. Então eu recomendaria apenas para recortes mais estudados e sempre tendo em mente que existe apenas uma perna de uma calça dessas encontrada no período e região relevante pra Era Viking.

Algumas calças na arte da época e de achados arqueológicos, são como meia-calças, como disse ali na parte dos sapatos, então eu não desencorajaria o uso dessas, mas recomendo aos iniciantes que usem partes separadas pra terem uma chance de "edição" maior com o tempo. Ou então calças com pés integrais que possam entrar dentro de sapatos. De todo modo, muitas vezes os pés são costurados à parte, então não chega a ser um grande problema. E existem calças assim desde o século 2, com Thorsberg, até sabe-se lá quando, já que o homem de Bocksten também usava uma dessas no 14. E, claro, embora mais presente na moda feminina, estão em uso até hoje. Então assim, é uma questão de escolha pro novato, mas pensem em algo que sejam confortável, prático e que vocês não vão se arrepender depois.

Finalizando as calças, existem também as winningas ou putees. São longas faixas de lã enroladas na canela pra manter a roupa bem junta à perna. Geralmente são presas com ganchos triangulares ou em forma de gota que ficam costurados ou amarrados à ponta da faixa. Eu não faço muita ressalva a essas roupas, independente de recortes, mas acho que pro iniciante é melhor focar em outras coisas antes de providenciar winningas que não serão mais substituidas.

Os tecidos que você deve procurar são linho e lã, apenas. Fontes escritas e materiais apontam o uso de ambas e mais nada. porém, todavia, contudo, quando uma fonte material é descrita como "linho" ela se refere a qualquer tecido de origem vegetal, incluindo tramas mistas, que talvez houvessem na época para as populações mais pobres. Cânhamo era usado pra tecidos que não fossem acabar em roupa (afinal aquilo coça), por exemplo, mas um escravo talvez não tivesse muita opção. Algodão talvez pudesse ser vendido a preços bem caros no norte da Europa, já que era produzido em áreas de cultura islâmica ou no Império Bizantino. Mas a menos que você use uma roupa com influências islâmicas/bizantinas no próprio corte, o que é perfeitamente possível, evite algodão porque visualmente é muito distinto do linho e principalmente da lã.

Se você também acha que linho e lã puros são caros, bem vindo ao clube. Mas se você é menos radical sunita do reenactment do que eu, existem tecidos mistos de linho a um preço muito mais acessivel. E a aparência é bastante ok. Algumas das minhas túnicas de linho misto, quando colocadas lado a lado com as de linho puro, enganam muito bem. E moramos no Brasil, país tropical, calça colada de lã é meio... complexo. Mas eu recomendo, quando possível.

Lã, infelizmente, é caro. E lá de qualidade é mais ainda. Embora algumas coisas role fazer com feltro de lã (não aquele feltro com vários nomes politicamente incorretos), é difícil de se encontrar e não é bom pra roupas que ficam grudadas no corpo. Coça, esquenta e rasga. Mas, pra uma sola de calça, é mais ok.

Tecidos pra calças podem ser lisos ou com padrões tecidos, como diamantes, aqueles ">>>>" listras e afins. Evite xadrez com muitas cores e coisa e tal. Além disso, assim como pra túnicas à seguir, não use tecidos pretos. Apesar de existirem tintas pretas para pinturas de pergaminho, madeira, até de barcos, não existia uma forma de tingimento que mantivesse a cor preta por muito tempo no tecido. Na primeira água que batesse já ia desbotar e levando em conta que estamos falando de regiões onde neva, que são cobertas por rios, lagos, mares e o Atlântico Norte, água é o que não faltava pra tirar a cor dessas roupas.

Se seu recorte é mais neutro, use como decoração no máximo uns tablet weavings ou ganchos pra winningas sem desenhos, ou com padrões geométricos mesmo, lembrando que qualquer decoração é sinônimo de status, independente de época e local. Isso inclui tecidos com padrões.

Túnicas: basicamente uma camiseta longa que termina em algum ponto entre o joelho e a cintura. Essa parte é bem mais fácil de escrever que a parte das calças, já que embora existam várias túnicas e nenhuma seja igual à outra, são bem mais uniformes, mesmo que de vários tipos.

Se for ver, túnicas parecidas já eram usadas pelos germânicos que encheram os sacos romanos e continuaram em uso até o século 15. Lembrando que o Brasil foi "descoberto" no 16. Então pensa que túnica é um negócio persistente. Ainda mais se for pensar que elas estavam em uso lá na Noruega até no Egito, da Rússia à Islândia e Irlanda. Pensa nisso.

Das túnicas do nosso período, as diferenças estão nas nesgas - ou "gores" -, comprimentos e golas. Além da construção básica, claro.

Um tipo possui as tais nesgas, que são triângulos na barra. Como elas terminam abaixo da cintura, é natural que tenham algum esquema pra não rasgarem quando você abre a perna. E você costuma abrir a perna pra, sei lá, andar. Esses triangulos ficam geralmente nas laterais ou nas laterais e nas faces (frente e trás). Sempre em números pares. Bom, às vezes são em forma de trapésios, com pregas e tal, mas vou facilitar aqui e cortar esses. Às vezes cada triângulo é formado por outros dois menores, pra economizar tecido, às vezes são inteiriços. Às vezes no lugar dos triângulos as faces alargam nas laterais, mantendo a mesma aparência geral da túnica, mas com menos partes e a necessidade de usar tecidos maiores. Às vezes... Enfim. Sabe a imagem da Bíblia de Morgan que eu coloquei ali em cima pras calças? É aquilo ali. Mas também é o que tem aqui em baixo:


(Essa montagem foi tirada de http://awanderingelf.weebly.com/. Mesmo sendo imagens achadas na internet, eu assumo minha preguiça em juntar todas numa só imagem e acho que os créditos são importantes. Olhem o site, aliás, se quiserem ler muito sobre roupa.)

Moselund e Kragelund ficam na Dinamarca, para fins de localização. Guddal e Skjoldehamn, Noruega. E na arte do período existem diversas com a mesma aparência da França, Alemanha, Inglaterra... Existem túnicas similares na Groenlândia, como disse, no Egito e por aí vai. E embora essas da montagem sejam séculos 11-12, outras de outros períodos são basicamente iguais.

Outro tipo de túnica é a que não possui as nesgas. Então elas tem aberturas nas laterais, como essa abaixo:




Pois é, eu sempre falo dela aqui no blog por ela ser muito legal. Na reconstrução ali do lado direito dá pra ver o cortezinho na lateral que falei. Essa é a Túnica do Homem de Bernuthsfeld, oeste alemão. Data do século 8. Imaginem a reconstrução dela como uma túnica comum no período, porque era. Embora a original nem tanto, claro.

A túnica de Bernuthsfeld é muito parecida no formato que uma de Thorsberg, com a mesma datação das calças. E também parecidíssima com uma de Guddal. É uma tradição paralela à túnica com as nesgas, que a acompanha nos mesmos lugares e épocas.

O que dá pra imaginar é que essas sem nesgas sejam mais usadas por pessoas com menos posses e as outras com pessoas de mais posses, mas não é uma regra, já que São Francisco de Assis usava túnicas com as nesgas, feitas com muito tecido e muitos retalhos. E a de Thorsberg, embora de uma época bem anterior à Era Viking, feita com lã de padrões bem elaborados, assim como algumas do cemitério de Guddal. Mas o que se precisa é bom senso: um homem de posses talvez usasse uma túnica com menos tecido por praticidade. Um guerreiro não ia usar sua melhor túnica pra rasgar numa expedição de saque. E eventualmente quando tivesse remendos de mais, talvez um rei daria sua túnica velha pra algum servo mais querido. Isso é importante: pessoas tinham mais de uma roupa na época e óbvio que nem todas eram iguais.

Talvez essas sem nesgas, cheias de remendos, fossem usadas como "undertunics", mas muitas vezes esses homens achados mumificados em pântanos só vestem uma camada de roupa, mesmo que estejam com capas e gorros. É difícil de afirmar.

A outra diferença é a gola. Como vocês podem ver pelas imagens, existem diferentes estilos de gola. Nenhuma é 100% igual à outra. Então "crossovers" entre os estilos não é necessariamente um problema.

Eu usaria - se eu fosse um iniciante hoje - uma túnica sem nesgas, independente do meu recorte. Faria uma túnica de linho, que chegasse até um pouco acima da metade das coxas. Larga, isso é importante. Sempre multiplique a medida da sua cintura por pelo menos 1,25 se quiser algo confortável e que não rasgue ao vestir e despir. A gola eu faria como a de Moselund, que é de longe mais fácil de ser feita, mas algo redondo, como a da ilustração da Bíblia de Morgan também é ok pro período viking e ainda mais fácil de se fazer, mesmo a bíblia tendo sido feita 200 anos depois de a ponte de Stamford.

Pra ter uma customização, você pode escolher um tecido mais legal, fazer uma costura decorativa, até bordados, como em Mammen (Dinamarca, século 10). Ou costurar os tablet weavings nas bordas também. E a mesma regra vale aqui: decoração fica sempre algo específico, você fecha o recorte, mas abre possibilidades com isso. Estude antes de decorar algo.

Tecidos vai a mesma regra que as calças. Mas embora existam túnicas de lã, galera, Brasil. Não sofra à toa.

Cinto: diferente dos nossos atuais, um cinto desse período geralmente é mais longo e mais fino, embora toda regra tenha exceções.

Você vai precisar de um cinto pra prender a calça no lugar e um pra segurar a túnica, sendo o primeiro "invisível" no recorte, então na falta use um moderno mesmo. O segundo precisa estar certinho.

Existe uma caralhada de formas de fivela, pra não ter erro, use uma em forma de D, sem adornos, que estará correto pra qualquer período na história dos cintos. Vai de ferro mesmo, ou de QUALQUER liga de cobre. "Bronze", na arqueologia se refere a "liga com maior parte de cobre e sabe-se lá o que mais". Sério. A menos que tenham uma análise da composição, que não é sempre que fazem.

Além da fivela e do couro, existem "enfeites" pra cinto. Sabe o que eu falei pra decoração? Então, vale aqui. Não importa se você se decidiu que quer fazer um cara de Hedeby e achou um cinto completo de Hedeby. Decoração também significa classe social também. Então pensa direito nisso que é um negócio que amarra de mais o recorte.

Por fim existem os "strap ends", que são ponteiras pros cintos. Não são obrigatórios, claro, mas facilitam o uso um bocado. Eles deixam a ponta rígida e pesada, então passam mais fácil pela fivela e deixam o couro esticado sempre. Caras, esses dias eu baixei uma tese de doutorado de 530 páginas sobre strap ends no atual Reino Unido. Existem MUITOS estilos e formatos pra esses negócios, então tomem cuidado pra não comprarem coisa errada pros cintos de vocês, porfa. Eles são decorativos ao extremo. É a função principal, além de esticar e passar mais fácil. Então, a regra se aplica aqui mais do que nunca.

Uma imagem de algumas fivelas e ponteiras de Birka vai abaixo, pra ilustrar isso direito.


Pro iniciante: Um cinto com uma fivela de ferro ou liga de cobre (vale zamak aqui, não esquenta tanto), com mais ou menos 1,5-2cm de largura, presa no couro tanto com uma dobra da tira costurada nela mesma ou com uma chapinha de latão/cobre/outra liga de cobre que não estilhasse. E que seja no máximo uns 30cm maior que a circunferência que ele vai prender. Não adianta fazer um cinto que chegue até o chão, isso não existe em nenhuma representação do período viking. Pra ponteira eu evitaria ou faria uma de latão, entre 4 e 7cm de comprimento, com a largura do couro, com formato de U e com uma decoração bem simples de triângulos, círculos-e-pontos, argolas e linhas (não necessariamente tudo isso junto). Ou uma de ferro reta dobrada ao redor da ponta.

Couro aqui procure atanados/soletas tingidos ou vaquetas. Desaconselho outros couros.

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Bom, esse post me levou praticamente um dia pra ser escrito, então não sei quando vou continuar com a parte 2. Mas uma hora sai.

De novo, não pretendo esgotar nenhum assunto, só dar uma pincelada pro iniciante saber o que fazer e pro experiente conseguir criar um "método" de decisão de recortes que talvez funcione pra ele assim como funciona aqui.

E a vida segue, até o próximo.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A cópia exaustiva, a falta de pesquisa e os Power Rangers

Pois é, um dos problemas mais comuns em alguns períodos de reencenação histórica.

Já viu fotos de um evento ou talvez já esteve em um em que você se sentiu em uma conferência dos Power Rangers? Deixa eu explicar melhor: imagine que você vê um grupo de reenactment onde todos recriam a mesma localidade e período. Normal, existem aos montes. Mas imagine que ao invés de buscar várias referências, o grupo inteiro pega tipo um pacote fechado e todo mundo calça sapatos do mesmo modelo, túnicas com o mesmo corte, gorros idênticos, espadas de um mesmo modelo dentro de uma mesma marca e por aí vai. As únicas mudanças são tamanho e cor. Pois é, parece que você está assistindo aos Power Rangers e todos tem pouquíssimas variações de um mesmo template.

No reenactment isso é comum.

Lembra do post sobre conjectural ou sobre o micro-recorte? Então, dá uma relida caso tenha esquecido. Ajuda.

Vamos lá, como alguns arqueólogos e historiadores da arte sugerem, era comum em vários períodos, especialmente os períodos Merovíngio e Carolíngio (ou Era das Migrações e Era Viking, se preferir o nome) que grupos de guerreiros afiliados a um mesmo chefe usassem "enfeites" similares, como broches, ponteiras e bocais de bainhas ou outros objetos. Mas isso demonstrava mais uma forma de se identificar através desses detalhes do que qualquer forma de padronização como um uniforme ou farda.

Além disso, é perfeitamente possível que um determinado senhor encomendasse esses objetos em um mesmo artesão ou oficina, o que explica o fato de que tecnicamente todos fossem parecidos. Diferente de hoje onde um artesão pode acessar todo um leque gigantesco de estilos, técnicas, materiais e afins, um artesão dos períodos citados acima provavelmente seguia uma única "escola" ou tradição que permitia que ele tivesse pouca liberdade para experimentar e mudar sua produção.

O que explica provavelmente o fato de alguns estilos de hilt de espadas, por exemplo, estarem confinados a regiões geográficas minúsculas, como as tipo G da tipologia Petersen terem uma maior incidência no sudeste da Noruega, ou as tipo S-Pyast em pontos específicos da Polônia. Isso nos dá exatamente o local e data onde o artesão atuava. Mesmo que haja uma ou outra fora desse núcleo, a gente sabe a origem.

Mas veja só, mesmo essas coisas não eram idênticas umas às outras. Não existem duas espadas iguais, mesmo que hajam espadas quase que gêmeas. Não existem duas túnicas iguais, mesmo que todas sigam mais ou mesmo as mesmas linhas gerais. Não existem dois sapatos iguais, mesmo que os contornos gerais sejam similares. Sabe por quê? Porque eram feitos à mão.

Nossa sociedade contemporânea tem uma dificuldade ENORME em entender o que é trabalho manual. Mesmo pessoas envolvidas com trabalhos manuais tem essa dificuldade. Porque nós somos treinados desde que nascemos a criar padrões, a replicar coisas até que quase não tenham variação e a exigir exatamente aquilo que se espera no produto final. E antes do século XVIII isso NÃO EXISTIA. Esse conceito de querer duas coisas idênticas é um conceito que só foi possível com a revolução industrial.

Quer prova? Olhe as famosas e famigeradas Ulfberhts. Nem a escrita é igual. "Ah, mas a Cawood e a Korsoygarden são idênticas". Não, não são. Elas são parecidas, com muitos elementos similares que provavelmente as colocam como filhas da mesma oficina, mas não são iguais. Elas tem ângulos visivelmente diferentes, elas tem detalhes diferentes. Até o tamanho muda em alguns centímetros. E alguns centímetros fazem muita diferença. Porque isso significa que elas não foram feitas para serem idênticas, como produtos em série, mesmo que tenham sido feitas para serem parecidas.

O mesmo acontece com guardas e pomos de algumas tipo K Petersen francas que possuem decoração e estilos similares, mas em nenhum momento se pretendem do mesmo tamanho.

Claro que é extremamente mais fácil chegar no costureiro ou sapateiro e falar "quero três túnicas assim". É como nosso mundo funciona hoje. Mas eu conheço muitos reenactors que fazem as próprias roupas, sapatos e outros objetos de uso cotidiano. Não tem problema ser um pouco conjectural de vez enquando. Mesmo porque, se for parar pra olhar, boa parte das coisas mais icônicas que temos tem uma grande base conjectural.

Algumas túnicas foram reconstruídas no puro chute, já que estavam danificadas de mais pra realmente servirem de testemunho de como eram. Espadas, elmos, facas... Muito do que temos são sombras remotas que permitem muita invenção em cima. Sabem do achado que teoricamente teria a palavra Alá escrita num alfabeto que só teria sido inventado séculos depois? Então, arqueólogos fazem aquilo o tempo todo. Mas às vezes ninguém se importa com a notícia e a "verdade" pega. Uma prova disso é que existe debate acadêmico sobre quase tudo o que se acha e que tem alguma importância. Se tem debate é porque existem duas teorias distintas, no mínimo, sobre cada achado.

E o que isso tudo tem a ver com copiar, não pesquisar e Power Rangers? Bom, se você pesquisa sobre túnicas o suficiente, até o suficiente pra estabelecer uma tipologia pra elas, você começa a pensar em tipos, não em achados específicos, a menos que o que você esteja fazendo seja uma réplica, aí é pano pra outro post.

Mas qual a vantagem de trabalhar com tipologias? De novo falando de espadas, que é a minha área de estudo, mas a analogia serve pra todo o resto. Se alguém me pede uma "Tipo M Petersen" eu tenho uma grande liberdade pra fazer algo desse tipo. Posso escolher um perfil de lâmina condizente com o hilt, posso pensar numa decoração de empunhadura e bainha condizente com o hilt, posso fazer um hilt que esteja dentro dos "parâmetros" pra uma tipo M que fiquem bons com o estilo geral da peça. Vai ser uma espada autêntica, perfeita pro período, mesmo que não seja uma réplica de nenhum achado específico. E o dono vai ter uma peça que é só dele, não vai ver outra exatamente igual por aí, mesmo que veja outra tipo M. Isso é historicamente correto.

Se o cliente pede uma espada "igual a de Lesja", que é uma "anomalia" classificada como tipo M por falta de coisa melhor, por assim dizer, é uma coisa interessante pra um recorte norueguês do século IX ou X, que sai da curva. Mas já pensou se ele pede 5 "pro grupo"? Basicamente seria como pensar em produção em massa de produtos iguais pra esse período de séculos IX e X.

E isso gera simplificações que são no mínimo ridículas. É como se chegasse "ah, eu tenho uma espada Lesja", dando a entender que existem várias espadas iguais em Lesja. É diferente de falar "Tenho uma Ingelrii", porque de fato existiam várias dessas, mesmo que todas com diferenças marcantes. Mas hoje temos "calça Hedeby", "Sapatos Jorvik", "elmo Vendel/Valsgarde", ou meu favorito, "espada Petersen" que não diz absolutamente nada.

Além de existirem mais calças do que apenas uma em Hedeby, vários pares de sapatos em York, vários elmos em Vendel e Valsgarde e pelo menos 30 tipos de espadas categorizados pelo Petersen, às vezes esses achados são tão fragmentados que fazer um trabalho e dizer que foi achado em um determinado lugar é abusar do bom senso. É como eu dizer que minhas calças são baseadas em um achado de Hedeby quando na verdade o achado original tem só os restos de uma coisa que poderia ser uma calça, uma cueca, uma meia ou qualquer coisa do gênero.

Aí por isso é importante estudar. Porque quando você olha como os cortes de, digamos, uma túnica era, você percebe que pode reconstruí-la de pelo menos três maneiras diferentes. E você vê proposições de outros arqueólogos além daquele que postou em um blog sobre como os vikings eram muçulmanos. E percebe que talvez aquela reconstrução que todo mundo do seu grupo usa nem seja a mais possível. Mas você compara com outros achados, com tipologias e você passa a ver o que faz sentido ou não. Lembrem-se que as peças de pernas e braços de Valsgarde foram assumidas como uma proteção de abdômem por algum tempo, até alguém sugerir que talvez a pessoa usando aquilo não conseguiria se mexer.

E daí talvez você possa usar uma determinada construção que ninguém sugere porque ninguém tentou reconstruir e que você vai e descobre que é mais confortável do que uma que algum arqueólogo propôs. E que talvez fosse a forma com que a roupa tenha sido feita. Ou simplesmente escolher uma equivalente de algum período e local próximo se você ver que é plausível. Embora isso exige estudo, coisa que a maioria não está disposta a fazer.

O que não rola é dar motivos pras piadas que os gringos fazem entre eles quando alguém aparece com alguma coisa muito maluca e sai dizendo que "é de Birka", mas um conjectural responsável é melhor do que ter vários clones multicoloridos.

Evite copiar o tempo todo, principalmente quando você percebe que seu grupo tem várias coisas iguais. Mesmo que seja um grupo inteiro com um recorte bem pequeno, por exemplo "Francos da primeira metade do século IX". Olhem a Bíblia de Morgan pro século XIII, por exemplo. Ela é fenomenal que até numa representação artística, com vários equipamentos do mesmo tipo, você repara em detalhes que diferenciam cada uma das adagas, espadas elmos e roupas numa mesma cena.

Não faça seu grupo ou um evento se tornar uma conferência de Rangers. A menos que seja um reenactment de algum período mais recente, claro. Mas falando da Era Viking, ela não era monótona como alguns gostam de pensar. Ela era rica e cheia de possibilidades. Não vamos cair na mesmice.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O conjectural: prós e contras ao criar peças "do nada"

Primeiramente eu acho necessário dizer que esse tópico seria também tratado no post anterior, sobre buracos e micro-recortes, mas como se extenderia de mais, achei melhor dividí-lo. Caso não tenha lido o texto anterior, recomendo que o leia antes desse, já que ambos conversam muito.

O que é "conjectural" dentro do reenactment? É tudo aquilo que "poderia" ser, mas não é. Ou seja, é uma peça inventada, sem um análogo imediato em fontes escritas, materiais ou representativas, mas que é feito de acordo com suas "primas".

Um exemplo bem simples que eu costumo dar é pensar em escudos. Se eu encontro cinco escudos entre 90cm e 93cm em uma localidade e na localidade vizinha eu encontro mais seis entre 85cm e 88cm, eu posso afirmar com certa segurança que existiam escudos de 89cm na região. Logo, ao fazer um escudo de 89cm, estou fazendo algo conjectural, já que ele não tem um análogo direto na arqueologia.

Outro motivo bem simples pra eu citar os escudos é que eles quase que 90% das vezes são conjecturais e ninguém faz alarde quanto a isso. Embora, é claro, existem menos implicações teóricas e práticas em aumentar ou diminuir 1cm de um disco de madeira do que em outros tipos de objeto/atividade.

A ligação deste texto com o do micro-recorte é justamente que o conjectural tapa buracos que acabam surgindo de um modo bem mais freestyle. Então se eu quero fazer uma representação 100% fiel a um achado específico e o único buraco que eu encontro é com que cor o escudo de madeira foi pintado, eu vou lá e faço uma pintura baseada em representações artísticas de época, mas mudando, por exemplo, o número de divisões no círculo de 13 para 12. O que eu acabei de fazer é conjectural. Em dobro, já que além de mudar uma forma reconhecida de pintura, eu ainda a aplico em um escudo que talvez tivesse algo bem diferente em sua face, afinal, dificilmente um escudo dinamarquês seria pintado com motivos gotlandeses.

Pode não parecer muita coisa, mas imagine que eu escolho um determinado túmulo e falo "estou recriando o esqueleto número X de um lugar Y" e pinto sua túnica de vermelho. Mas de repente aquele cara vivia num reinado de algum rei maluco que proibiu o vermelho das roupas por ser uma cor pecaminosa e ostentosa, ou porque só o rei e nobres tinham permissão de usar vermelho ou sei lá. Mas essa lei nunca chegou pra nós, que fique claro. Pois é, estou sem querer criando algo que talvez fosse proibido e que jamais aconteceria nesse prazo de uns cinquenta anos que estou tentando reproduzir.

E se a tal lei do vermelho tivesse chegado até nós, mas nunca tivesse sido traduzida, tirando por algum desocupado bielorrusso? Daí quase ninguém ia saber, eu faria aquele esqueleto, usaria a túnica vermelha, porque eu gosto de vermelho e daí um dia eu encontraria um reenactor muito manjador lá da Bielorrússia que me diria "ei, vermelho é uma cor proibida nesse seu recorte". Eu posso fazer duas coisas: primeira é trocar a cor da roupa, retingir, fazer outra, whatever. Segunda é dizer "é conjectural. Estou usando o homem X do lugar Y como molde pra reproduzir um homem do lugar Z, que é atravessando o rio e que tinha outras leis".

Parece um escapismo, né? Pois é. É. Mas e se você soubesse falar bielorrusso e tivesse lido a fonte original e realmente quisesse fazer um cara da localidade Z, de onde a arqueologia só tinha retirado livros ilustrados da época mostrando roupas vermelhas e não outra forma de cultura material? Porque vai que o rei Z, na mesma época, tinha criado uma lei proibindo o enterro das pessoas, só permitindo cremação? O que não pode é mudar em cima da hora pra evitar ser feito de desconhecedor do próprio recorte.

Isso cai no micro-recorte e como expandí-lo, que eu já falei no outro post, mas a escolha das cores, de acordo com o que era possível, permite que você mude ou edite o achado.

O conjectural, em outras palavras, é o "possível, mas não provável". Mas não o provável no sentido de probabilidade e sim no sentido de já ter sido ou não provado.

E quais são os problemas dessa prática? Um é que você está sujeito a ser descredibilizado no dia em que surgir algo que explicitamente negue seu recorte. Como a descoberta da lei do rei Y em bielorrusso. Outro é que você realmente precisa estudar cada detalhe e nem todo mundo tem a disposição, aptidão ou tempo pra isso. Sério, reenactment é um hobby e tem gente que gosta apenas da parte mais prática do hobby e não tem problema nenhum nisso, mas pra esses eu recomendo usar coisas mais comprovadas e de conhecimento geral, pra não ficar em saia justa. É complicado quando algum reenactor sem disposição pra estudo resolve fazer aqueles recortes mirabolantes super raros.

O problema de ter que estudar muito o que se faz é justamente o fato de ser humanamente impossível saber sobre tudo de uma época passada e ainda ser funcional na nossa. Eu posso entender sobre produção de armas e outros artigos de ferro na Era Viking, mas não entendo nada sobre confecção de barcos ou a melhor forma de abater uma ovelha. É normal. Assim como tem gente que entende muito de culinária e arquearia e não faz ideia de como curtir uma pele. Mas se você não tem conhecimento de alguma área, você pergunta pra quem tem. Esse é o principal motivo de formarmos grupos, pra que um dê suporte ao outro.

E qual a vantagem, afinal, do conjectural? Várias, desde que feitas com responsabilidade.

Pra começar, eu volto à parte do micro recorte. Lembram do Bockstenenman? Pois é, como disse, ao copiar tudo o que ele vestia e usava você vai se parecer com um homem do século XIV. Com UM homem do século XIV.

O que quero dizer com isso? Bem, eu sou ferreiro e é muito comum eu receber pedidos de gente querendo "uma espada modelo tal", mostrando uma foto de algum trabalho que já fiz. Ou ainda pior falando "quero essa". De novo, o que eu quero dizer com isso? Assim como hoje meu trabalho é artesanal e não existem duas peças iguais, mesmo com réguas e suas medidas precisas, materiais padronizados da indústria, ferramentas mais precisas do que três ou quatro escravos e o fato de eu produzir bem mais sozinho do que um ferreiro naquela época produziria (a velocidade do mundo é outra e eletricidade faz umas coisas beeeem marotas).

O fato é que não existia industria e controle de padrões em períodos da história antes do século XVIII. Isso quer dizer, caso ainda não tenha entendido, que não existiam duas peças exatamente feitas da mesma maneira e que muitas vezes tudo que um artesão tinha pra se basear para uma nova ideia era um relance de longe. Ou você acha que TODO FRANCO do século IX falou "vou fazer uma espada assim, assim e assado" depois de ir numa escolinha? Não. Ele viu uma e copiou do jeito que pôde. É como a eterna discussão das Ulfberht e suas infinitas variações de forma, escrita, materiais e todos aqueles erros de escrita bizarríssimos em qualquer espada com inscrições.

O problema de seguir exatamente um único achado sem contextualização é que você cai na lógica de padronizar uma época não padronizada. E a gente não faz isso nem hoje com toda nossa padronização.

Voltando ao Bockstenenman, já parou pra pensar que se só tivesse ele de achado de roupa do século XIV, todo mundo ia se vestir igual? Imagina num evento de batalha de Visby, por exemplo. Com um bando de Power Rangers multi coloridos, mas usando as mesmas roupas. Não, a época definitivamente não era assim.

Exemplo? Eu acho a Bíblia de Morgan um dos documentos mais fascinantes do século XIII. Não só como alguém formado em Artes Plásticas e cansado de tanto ler sobre História da Arte, mas como reenactor. Você vê que os ilustradores fizeram questão de mudar as cores das roupas de cada um dos homens desenhados, mudar detalhes nas armas, detalhes nas armaduras, detalhes em tudo.

É como os diversos padrões diferentes na Tapeçaria de Bayeux, que talvez representassem a mesma coisa pras bordadeiras que a fizeram, mas que provavelmente fossem códigos visuais pra coisas diferentes também.

Mas sim, dependendo do período a coisa fica mais nebulosa. É impossível distinguir algo real em estilos de arte animal germânica ou posteriormente os estilos nórdicos. Mesmo porque eles não serviam pra retratar a realidade anyway.

O ponto é que se eu pegasse a túnica de Bernuthsfeld, usasse o corte dela (não os retalhos, mas o corte geral de forma depois de montada) e fizesse uma túnica bem feita, não tem autoridade no mundo que diria que ela não é autêntica. Mas ela não seria réplica de nenhuma peça histórica. Ela seria conjectural. Só que pra isso eu preciso estudar várias túnicas do período, além da questão de contexto, pra ter bons argumentos na hora de explicar porque eu estou usando isso e não uma outra túnica qualquer.

E olha só: o cara que inventar uma túnica assim baseada em vários achados diferentes fatalmente conhece MUITO MAIS o recorte do que quem apenas replicou um achado sem estudar outras fontes. Como sempre, tudo esbarra em estudo no final.

Pra dar exemplos práticos do que é conjectural e o que é bosta de boi, pense em um escudo redondo "viking" feito de compensado. Mas não como o compensado moderno e sim como sugerido naas Gulaþing e Frostaþing. Não se tem achado de como isso era feito. Mas se você fizer dessa maneira, é conjectural. Se você fizer como o compensado romano, é conjectural. Se você fizer com o compensado moderno, não adianta se embasar em fontes, não é conjectural, é uma forma de baratear os custos de uma peça que quebra o tempo todo. E tendo consciência disso e estado disfarçado, tá ok.

Elmos do período viking ou um pouco anteriores. Se você faz um elmo "esferocônico", com quatro partes unidas por tiras e uma viseira que fique em qualquer lugar entre Vendel 1 e Kiev, é conjectural, porque as construções de todos são basicamente as mesmas, mesmo que de períodos diferentes. Fazer um elmo cônico (de uma só parte) com uma viseira é mistura. Não é conjectura, é invenção.

Qualquer armadura do século XIV que você encontre em uma efíge, ou pintura, ou manuscrito é conjectural. Principalmente quando você vê várias bolinhas pintadas em membros. Você não sabe como a peça é construída, mas você se baseia em alguns achados e faz esse chute. Mas inventar tudo só porque o resultado final se parece com a escultura, sem olhar outras armaduras da mesma época, é invenção.

O segredo é ver padrões na diferença. Isso permite que você crie algo autêntico, mesmo que não tenha um análogo imediato. Inventar por inventar é irresponsabilidade. Modificar achados arqueológicos sem conhecer outros paralelos é irresponsabilidade. Vender ou fomentar ideias e objetos sem entender aquilo que se está fazendo é irresponsabilidade.

Também é um bocado irresponsável sugerir que qualquer período da história deva ser representado apenas por uma parcela minúscula de resquício material, replicada infinitamente sem uma compreensão maior do que esse resquício poderia ser.

O conjectural deve sim ser incentivado, mas não se você ou seu grupo não tem maturidade dentro da atividade ou conhecimento específico pra inventar essas coisas. E claro, cada grupo possui uma política em relação a isso e alguns banem o uso de objetos desse tipo. Não tem problema nenhum nisso.

Mas dando exemplo da Era Viking uma última vez nesse post: é melhor ver cinco elmos esferocônicos conjecturais diferentes numa parede de escudos do que cinco réplicas do único elmo inteiro encontrado no período. inventar, nessa hora, vai com certeza ficar muito mais pareciso com uma visão da época do que ser completamente fiel à evidência material.